sexta-feira, 2 de setembro de 2011

As Ondas

"O Sol ainda não nascera. O mar apenas se distinguia do céu pelo leve preguear das águas, semelhante a um tecido finamente enrugado. Lentamente, à medida que o céu clareava, uma barra de sombra desceu no horizonte, separando o céu do mar, e o grande tecido cinzento ficou marcado por grossas linhas que se agitavam sob a superfície, perseguindo-se num ritmo infindável.
Ao aproximarem-se da praia as ondas erguiam-se, tomavam forma e desfaziam-se arrastando pela areia um ténue véu de espuma branca. A ondulação detinha-se, partia de novo, suspirando como alguém que dorme e cujo sopro vai e vem sem que a sua consciência saiba. Pouco a pouco, a barra escura no horizonte clareou como as impurezas de um vinho antigo que se depositam na garrafa, deixando transparecer o seu vidro. Lá ao fundo, também o céu se tornou translúcido, como se nele se houvesse desprendido um sedimento branco, ou o braço de uma mulher reclinada no horizonte erguesse ao alto uma lâmpada. Faixas de branco, amarelo e verde alongaram-se sob o céu como longas folhas de um leque. Depois a mulher ergue a lâmpada ainda mais alto; o ar inflamado pareceu cindir-se em fibras vermelhas e amarelas, elevando-se da superfície verde um frémito ardente, como as chamas envoltas em fumo de um fogueira. Pouco a pouco, todas as fibras se fundiram numa única massa incandescente e o cinzento do céu transformou-se num milhão de átomos de um suave azul. A superfície do mar tornou-se transparente e as grandes linhas escuras desapareceram no ondular das águas e na sua cintilação. O braço que sustinha a lâmpada continuou a subir devagar até que uma grande labareda surgiu.
Um disco de fogo ardeu no rebordo do horizonte e o mar à sua volta tornou-se um esplendor de ouro.
A luz feriu as árvores no jardim, e as folhas agora transparentes iluminara-se uma a uma. Um pássaro cantou alto. Houve uma pausa. Depois outro pássaro retomou, mais baixo, o mesmo canto. O Sol deu contornos às paredes da casa e poisou como a ponta de um leque na persiana branca, deixando um dedada de sombra azul sob a folhagem próxima da janela de um quarto. A persiana estremeceu ao de leve, mas dentro de casa tudo permaneceu vago e sem substância. Lá fora os pássaros cantavam as suas melodias vazias."

Woolf V, sd, As Ondas, Editora Relógio d'Água, Lisboa, pp. 6-8.



segunda-feira, 25 de abril de 2011

As Ilhas (III)




Disse a enfermeira que a filha ser-lhe-ia muito apegada, por isso, por mais força que a Mãe fizesse para ela sair, a pequena criatura voltava a entrar! "Era uma moça nova quando o cancro a levou", recordou a Mãe, a enfermeira que, literalmente, lhe galgou a barriga para a Filha sair.
Mais certas não seriam as palavras da sábia enfermeira, nos três meses que sucederam o feriado, a Filha apenas dormia aconchegada no regaço da Mãe, queria ficar de novo dentro dela
Naquele dia, o cordão umbilical que as unia foi cortado, um corpo ficou vazio, o outro despido. A Filha já não se alimentava das entranhas da Mãe e, embora fosse abundante o leite que jorrava dos seus pequenos seios, a Filha ficou com fome
Alegria! Melancólica tristeza que não cabe em si
Ainda hoje não concebe aquilo que as une, serão os tais laços de sangue? Instinto? Sente-lhe o cheiro e fica confortada. Sente-se unida à Mãe. Pelo Coração? Pela Alma? Pelo Umbigo? Já tentou, mas de nenhum modo consegue lidar com a imagem de um dia a Mãe deixar de existir, que será da Filha sem a Mãe? Sempre que pensa nisso ficam-se-lhe os olhos a lacrimejar, o coração apertado, a alma pequena, sofre por antecipação, pois salvo as leis da natureza se rejam ao avesso, sabe que um dia será só a Filha, que um dia foi Filha da Mãe.
Parou de caminhar, imaginou o Pai no dia em que deixou as grandes viagens pelo oceano.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A décima primeira inspiradela - Palavras


Mais uma vez a inquietação das palavras.
Como se desencadeará o processo de escolher, organizar, conjugar, debitar letrinhas que ao se agruparem formam palavras, frases, textos, poemas, sonetos, declarações de amor, prosas mal escritas ou ainda conteúdos supérfluos?
Se a vida fosse contada ao segundo e se cada segundo correspondesse a uma palavra de pelo menos três letras, todas as teclas de um qualquer computador de silhueta avançada e moderna, mal tratado e agastado pelo tempo e pela raiva, gastar-se-iam à mesma velocidade de um metrónomo apressado que marca o compasso de uma composição musical de tom metálico e ainda assim, muito ficaria por dizer.
Palavras não chegam, não existem (?), não têm expressão, ferem por vezes, são sons inúteis que quebram o silêncio.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

As Ilhas (II)


A avó nem sempre tinha boa vontade, tinha feitio rude, áspero, moldado pela dureza do sol que todos os dias lhe amaciava o rosto. Talvez nos tempos que corriam a fome fosse mais ácida que uma maçã verde, manifesta como as tempestades que traziam os homens para terra e, talvez por isso, na mesma condição que uma matriarca aprova uma refeição, a avó, desaprovasse o nascimento da pequena Filha.
O Pai tinha-se iniciado nestas aventuras de mar em 1974, como já havia dito, mas foi no período entre 1977 e 1982 que andou a pernoitar pelas águas cálidas das Canárias. Cinco anos passaram e pouco ficou a conhecer, apenas memórias de portos, uma ou outra paisagem e do que ao longe avistava. Ainda hoje padece dessa estranha maneira de viajar sem conhecer o mundo! Será que era o que queria ou apenas as vicissitudes da vida o levaram lá?
Voltando à Filha. Nasceu no Outono, no dia que se diz dos mortos mas que na verdade é dos Santos, facto que normalmente se confunde! Nesse dia madrugou e viu pela primeira vez os primeiros raios de sol do dia. Na cabeça não trazia um único cabelo, nasceu aliada às árvores de folha caduca, que nesse ano, já sentiam que o rigoroso Inverno queria chegar mais cedo. Talvez pela rigidez do ar frio a Filha não quisesse sair de dentro do corpo quente da Mãe, que nesse dia experimentou, pela segunda e última vez, o misto de prazer emocional e dor física do parto.
Era feriado e o Pai tinha mais uma razão para comemorar, nessa noite, como todos os pais fazem quando nasce um filho, brindou.
Por entre as histórias que a Filha nunca soube ou porque os pais esqueceram ou porque apenas não querem recordar, ficou um objecto perdido, embora nunca esquecido, num qualquer canto da pequena casa, que ainda hoje faz as delicias da sua imaginação.
Soube a Filha, por alguém que sabe como se faz, que dentro de pouco tempo vai dar asas à sua imaginação.