sábado, 21 de janeiro de 2012

Anos de cão - Parte I


Um dia escreveu-lhe uma peça para que interpretasse, tomasse como guia e a encontrasse naquele sítio que haviam escolhido para ser deles. "Encontra-me aqui, onde o norte se perdeu, o mar não chega, pela hora onde Antares está um metro acima da linha do horizonte", lembro-me vagamente de ler.
Estávamos em pleno Verão e a sua máquina movia-se a amor. O tempo, embora passasse à mesma velocidade de sempre, acompanhando a rotação da Terra, parecia, ainda assim, veloz, como o burburinho de um milhar de milhão de bocas que falam ao mesmo tempo e fazem vibrar os tímpanos como o zumbido de um milhar de milhão de abelhas iradas. Ritmo frenético ou anos de cão, eles chamaram-lhe viver.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

As Ondas

"O Sol ainda não nascera. O mar apenas se distinguia do céu pelo leve preguear das águas, semelhante a um tecido finamente enrugado. Lentamente, à medida que o céu clareava, uma barra de sombra desceu no horizonte, separando o céu do mar, e o grande tecido cinzento ficou marcado por grossas linhas que se agitavam sob a superfície, perseguindo-se num ritmo infindável.
Ao aproximarem-se da praia as ondas erguiam-se, tomavam forma e desfaziam-se arrastando pela areia um ténue véu de espuma branca. A ondulação detinha-se, partia de novo, suspirando como alguém que dorme e cujo sopro vai e vem sem que a sua consciência saiba. Pouco a pouco, a barra escura no horizonte clareou como as impurezas de um vinho antigo que se depositam na garrafa, deixando transparecer o seu vidro. Lá ao fundo, também o céu se tornou translúcido, como se nele se houvesse desprendido um sedimento branco, ou o braço de uma mulher reclinada no horizonte erguesse ao alto uma lâmpada. Faixas de branco, amarelo e verde alongaram-se sob o céu como longas folhas de um leque. Depois a mulher ergue a lâmpada ainda mais alto; o ar inflamado pareceu cindir-se em fibras vermelhas e amarelas, elevando-se da superfície verde um frémito ardente, como as chamas envoltas em fumo de um fogueira. Pouco a pouco, todas as fibras se fundiram numa única massa incandescente e o cinzento do céu transformou-se num milhão de átomos de um suave azul. A superfície do mar tornou-se transparente e as grandes linhas escuras desapareceram no ondular das águas e na sua cintilação. O braço que sustinha a lâmpada continuou a subir devagar até que uma grande labareda surgiu.
Um disco de fogo ardeu no rebordo do horizonte e o mar à sua volta tornou-se um esplendor de ouro.
A luz feriu as árvores no jardim, e as folhas agora transparentes iluminara-se uma a uma. Um pássaro cantou alto. Houve uma pausa. Depois outro pássaro retomou, mais baixo, o mesmo canto. O Sol deu contornos às paredes da casa e poisou como a ponta de um leque na persiana branca, deixando um dedada de sombra azul sob a folhagem próxima da janela de um quarto. A persiana estremeceu ao de leve, mas dentro de casa tudo permaneceu vago e sem substância. Lá fora os pássaros cantavam as suas melodias vazias."

Woolf V, sd, As Ondas, Editora Relógio d'Água, Lisboa, pp. 6-8.



segunda-feira, 25 de abril de 2011

As Ilhas (III)




Disse a enfermeira que a filha ser-lhe-ia muito apegada, por isso, por mais força que a Mãe fizesse para ela sair, a pequena criatura voltava a entrar! "Era uma moça nova quando o cancro a levou", recordou a Mãe, a enfermeira que, literalmente, lhe galgou a barriga para a Filha sair.
Mais certas não seriam as palavras da sábia enfermeira, nos três meses que sucederam o feriado, a Filha apenas dormia aconchegada no regaço da Mãe, queria ficar de novo dentro dela
Naquele dia, o cordão umbilical que as unia foi cortado, um corpo ficou vazio, o outro despido. A Filha já não se alimentava das entranhas da Mãe e, embora fosse abundante o leite que jorrava dos seus pequenos seios, a Filha ficou com fome
Alegria! Melancólica tristeza que não cabe em si
Ainda hoje não concebe aquilo que as une, serão os tais laços de sangue? Instinto? Sente-lhe o cheiro e fica confortada. Sente-se unida à Mãe. Pelo Coração? Pela Alma? Pelo Umbigo? Já tentou, mas de nenhum modo consegue lidar com a imagem de um dia a Mãe deixar de existir, que será da Filha sem a Mãe? Sempre que pensa nisso ficam-se-lhe os olhos a lacrimejar, o coração apertado, a alma pequena, sofre por antecipação, pois salvo as leis da natureza se rejam ao avesso, sabe que um dia será só a Filha, que um dia foi Filha da Mãe.
Parou de caminhar, imaginou o Pai no dia em que deixou as grandes viagens pelo oceano.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A décima primeira inspiradela - Palavras


Mais uma vez a inquietação das palavras.
Como se desencadeará o processo de escolher, organizar, conjugar, debitar letrinhas que ao se agruparem formam palavras, frases, textos, poemas, sonetos, declarações de amor, prosas mal escritas ou ainda conteúdos supérfluos?
Se a vida fosse contada ao segundo e se cada segundo correspondesse a uma palavra de pelo menos três letras, todas as teclas de um qualquer computador de silhueta avançada e moderna, mal tratado e agastado pelo tempo e pela raiva, gastar-se-iam à mesma velocidade de um metrónomo apressado que marca o compasso de uma composição musical de tom metálico e ainda assim, muito ficaria por dizer.
Palavras não chegam, não existem (?), não têm expressão, ferem por vezes, são sons inúteis que quebram o silêncio.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

As Ilhas (II)


A avó nem sempre tinha boa vontade, tinha feitio rude, áspero, moldado pela dureza do sol que todos os dias lhe amaciava o rosto. Talvez nos tempos que corriam a fome fosse mais ácida que uma maçã verde, manifesta como as tempestades que traziam os homens para terra e, talvez por isso, na mesma condição que uma matriarca aprova uma refeição, a avó, desaprovasse o nascimento da pequena Filha.
O Pai tinha-se iniciado nestas aventuras de mar em 1974, como já havia dito, mas foi no período entre 1977 e 1982 que andou a pernoitar pelas águas cálidas das Canárias. Cinco anos passaram e pouco ficou a conhecer, apenas memórias de portos, uma ou outra paisagem e do que ao longe avistava. Ainda hoje padece dessa estranha maneira de viajar sem conhecer o mundo! Será que era o que queria ou apenas as vicissitudes da vida o levaram lá?
Voltando à Filha. Nasceu no Outono, no dia que se diz dos mortos mas que na verdade é dos Santos, facto que normalmente se confunde! Nesse dia madrugou e viu pela primeira vez os primeiros raios de sol do dia. Na cabeça não trazia um único cabelo, nasceu aliada às árvores de folha caduca, que nesse ano, já sentiam que o rigoroso Inverno queria chegar mais cedo. Talvez pela rigidez do ar frio a Filha não quisesse sair de dentro do corpo quente da Mãe, que nesse dia experimentou, pela segunda e última vez, o misto de prazer emocional e dor física do parto.
Era feriado e o Pai tinha mais uma razão para comemorar, nessa noite, como todos os pais fazem quando nasce um filho, brindou.
Por entre as histórias que a Filha nunca soube ou porque os pais esqueceram ou porque apenas não querem recordar, ficou um objecto perdido, embora nunca esquecido, num qualquer canto da pequena casa, que ainda hoje faz as delicias da sua imaginação.
Soube a Filha, por alguém que sabe como se faz, que dentro de pouco tempo vai dar asas à sua imaginação.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

As Ilhas (I)


Naquela altura ela ainda não tinha nascido.
Eles eram três, viviam numa pequena casa, numa pequena aldeia, onde o grande mar entrava.
A Mãe, passava o tempo entre engenhocas têxteis e educar, por dois, o Filho, tarefa árdua que não demorou em entender. O Pai, desde a Revolução, ano em que o Filho nascera, passava os dias, lá bem no meio do oceano, de olhos postos na nostalgia do horizonte, recebia sermões dos peixes e encantava sereias.
O ano em que ela nasceu, foi o último que o Pai trabalhou lá para os lados das Canárias. O Pai era alto, tinha a pele morena e os olhos verde camaleão, apetecível para a Mãe a qualquer instante, mas sempre longe, quis o destino que assim fosse. Ainda hoje o Pai está sempre longe e a Mãe passa o tempo entre engenhocas têxteis e apreciar o fruto da tarefa árdua que durante anos cumpriu com destreza e brio. Queriam eles outro destino? Alguns meses antes do Pai voltar para casa com o objectivo de ver a Mãe todas as semanas, incidentes de uma noite de tempestade, levara-o a atracar numa das ilhas do arquipélago, não sei o que viu, com quem esteve, o que fez, com que se fascinou, no que pensava mas, na mala da roupa suja, trouxe uma pequena recordação para casa.
Agora já eram quatro, mudaram de casa e embora continuasse a ser pequena era na mesma pequena aldeia mas, desta vez, um pouco mais longe de onde o mar entrava.
A Filha saíra ao Pai e apesar de não ser alta, conservara o melhor, os olhos verde camaleão, já herdados pelo Pai à avó.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Conversas e outras histórias - Capítulo III



8 de Março de 2010, dialogando sobre nada:


“Mulher – Feliz dia da mulher!
Homem – Obrigada! Sabia que não te irias esquecer, as datas sempre foram o teu forte! Feliz dia da mulher, Sr.ª Mulher!
Mulher – Obrigada, mas hoje e, directamente do País das Maravilhas, sou um Homem!
Homem – Fodasse!!!!!!!!! Um homem? O que vale é que é só hoje, senão eu teria sido paneleiro, gay, rabeta, boiola, homossexual, aquele que abafa a palhinha, numa parte da minha história! Ufa!
Mulher – Confessa lá que até tens um fraquinho pelo sexo “oposto”!
Homem – Já viste…
Mulher – Por acaso, creio não conseguir ver muito bem, ou pelo menos já vi melhor, depende do contexto…
Homem – Lá está! Afinal não é o amor que move o mundo, mas sim o contexto!
Mulher – É facto que nunca chegaria a tão brilhante conclusão. Mas ainda tenho esperança que o amor faça mover o meu mundo, em que contexto é que ainda não sei!”

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A décima inspiradela - Comunicar

Foto por João Pedro, 2010

Comunicar.
Desdenhar palavras pela boca como se elas não tivessem fim, como se não se gastassem, como se não servissem para mais nada do que apenas a (i)reflexão de algum sentido traduzida na articulação sonora, esganiçada ou estridente da própria voz.
Dizemos o que sentimos, o que não sentimos e acrescentamos um pouco mais para não parecer que estamos vazios, ou que ignorância das palavras nos atacou!
Para aqueles que têm muito para falar e pouco para comunicar, talvez fosse bom perceber que comunicar não é sinónimo de Falar.
Comunico.
Razões para a falta de palavras: esqueci como se pronunciam, o tempo consumiu-as ou ainda posso aplicar a teoria das amnésias temporárias com causas incertas, que proporcionam a incomodativa sensação de ter as palavras debaixo da língua e não as conseguir dizer e que ainda fazem revirar os olhos como se as procurasse dentro do cérebro!
Será que se eu levantar a minha língua conseguirás ler aquilo que tenho para te dizer e tirar cada palavra, letra a letra, libertando dentro de mim este algo que me enche e transborda?
À falta de ser como aqueles que muito têm para dizer e pouco para comunicar, enquanto as palavras não fluem, dou expressão ao corpo em pequenos movimentos que desenho a carmim.


sábado, 22 de maio de 2010

Alguma coisa contra os meus sapatos verdes?


Saiu à hora do almoço apressada e emproada, onde iria ela tão fresca e retocada?
Subiu a rua de mala ao ombro, de semáforo em semáforo, de lado a lado, de lés a lés, com passos largos, lá ia ela de nariz empinado.
Tocou à campainha. Tinha quarto e almoço reservado para um horário apertado.
Ele abriu-lhe a porta e em silêncio beijou-a,
- Hoje trazes sapatos verdes!
- Alguma coisa contra os meus sapatos verdes?
- Não, mas gosto mais de ti sem eles!
Ele foi almoço, sobremesa, café e cigarro, menu gourmet degustado, suado, mastigado, engolido de uma só vez num espasmo prolongado.
Com um cheiro diferente na pele saiu do quarto, desceu as escadas, desceu a rua, lá ia ela de mala ao ombro, de semáforo em semáforo, de lado a lado, de lés a lés, com passos largos, ela voltava, de nariz empinado, para o mesmo espaço agastado!
Estava de estômago vazio mas de alma repleta, sossegada e saciada!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Página 1

Suponho que a infiabilidade do sistema não nos permite obter resultados seguros da nossa pequena loucura. Ainda, e se me permites, digo-te que somos loucos e nessa loucura classificada como clarividente, existe sempre a hipótese de seguir a tendência ou, numa pequena regressão audaz, aproximar os pontos de forma não linear.
Desafia o risco, promove a consequência, conhece-te.
Beneficia da tua causa e mesmo que não a tenhas, não ponhas em causa a tua existência.
Regista, regista-te, regista o momento, enuncia-o, fica na história, tem uma história para contar!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Foi o tempo de ir e voltar

video

Foi o tempo de ir e voltar.
Foi só o tempo de ir e voltar. Um vou ali e já venho, um volto já na porta da tasca do velho carrasco.
Foi o tempo de ir e voltar. Vai! Vai e não voltes.
Foi o tempo de ir e voltar. Vamos falar! Foi o tempo que separou o tal amor?
Foi o tempo de ir e voltar. A decisão está tomada, o tempo encarrega-se do resto.
Foi o tempo de ir e voltar. Sente o tempo! Sente o tempo a passar por ti. Consegues sentir?
Foi o tempo de ir e voltar. Foi tempo de querer o tempo igual.
O tempo não volta. O tempo já não volta. Não te escondas na revolta, que o tempo não volta igual. Nós somos o tempo, aquele que nos faz, somos dois, mas no tempo do nosso amor, o tempo já não tem par.
Parar.
Recuar.
Hesitar.
O tempo já não nos vai tomar.
(Ou talvez um dia, o tempo nos tome por loucos!)
Avançar.
Inovar.
Amar.
Foi o tempo de ir e voltar. Foi só o tempo de ir e voltar, num instante, num vai e vem ondular. Foi o tempo de ir e nunca mais voltar.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Eu tenho uma amiga que se chama Maria – Parte V, Vicente

Encontrei Maria na cama, enrolada em mil lençóis, numa escuridão podre envolta em odores de mofo! Nunca a vira assim! Nunca… Onde estava a mulher confiante, arrebatadora, forte? Onde estava Maria?
-Maria?
Não me respondeu, não me encheu o cérebro com palavras como era habitual, não falava, não se mexia, apenas saia debaixo dos lençóis um pequeno murmurinho de choro soluçado.
-Maria?
Deixei a porta semi-aberta e entrei na imensidão daquele quarto onde nada se encontrava, o caos rodeava-a, abri a janela e deixei entrar o sol como ela tanto apreciava.
-Maria?
Aproximei-me da cama e por cima daquele emaranhado de roupa, colei-me a ela e abracei-a. Sentia a sua respiração, trémula, húmida de tanto chorar, a cara estava inchada, vermelha, deformada. Maria tinha sido substituída por outra Maria que não era aquela que eu conhecia!
-Maria… conta-me!
E Maria contou-me…
-Já te falei do Vicente?
Desta vez, Maria deu-me tempo para fazer um gesto de negação com a cabeça!
-Conheci Vicente da mesma forma que tantos outros. Naquela noite a casa estava cheia, reparei num homem alto de cabelo comprido que fumava um cigarro como quem delicia a melhor iguaria do mundo! Estava acompanhado, mesmo assim, durante toda a noite segui os seus movimentos. Teimei em olha-lo fixamente, queria que também me visse! E viu-me, viu-me e parece que o afugentei! De repente… procurei, mas já tinha saído!
Não me saiu da cabeça, e entre manhas e artimanhas, pus em prática os meus dotes de investigadora e, lá estava ele! Fomo-nos aproximando, descobrindo, sarando feridas em comum, era uma compreensão mútua, ele encaixava em mim, que bem que ele encaixava em mim! Provei-o vezes sem conta, ele era a minha redenção, libertação, forma de expressão, era prosa, poesia, era Música! Exaustos, caíamos na cama, ou no que restava dela, e era como se de repente só existíssemos nós! O seu cheiro ficava entranhado em mim, e mesmo sem querer, ele era já parte de mim, enrolava-me nele e adormecia…
Apaixonei-me por ele, amava-o, até!
Sabes como sou, aprecio o meu canto, cingir-me a mim e resolver as minhas questões assim, como quem faz contas de cabeça, em silêncio! Bem sei que soa a um alter-ego elevado, mas preciso tanto do silêncio como quem precisa de um amigo para falar! Não é fácil perceber, não é fácil aceitar, não é fácil lidar com tanta inquietude… Não foi fácil para Vicente. Ele tentou!
A tristeza no seu rosto era perceptível a milhas… Não, não podia ver Vicente assim, mas eu (quase) nada podia fazer, o meu cérebro continuava em modo de cálculo e que equação de difícil resolução… Se não o libertasse, quantas vezes na vida ia Vicente ficar de rosto caído, triste? Amo-o demais para o fazer sofrer. Deixo que me odeie enquanto me expulsa da sua mente, enquanto limpa o meu cheiro ainda impregnado no seu corpo, enquanto me esquece, mas não deixo que esqueça aquilo que fomos, aquilo que criamos, aprendemos, como crescemos, porque nós… Nós éramos Maria e Vicente!

Maria e Vicente nunca mais se voltaram a cruzar, sequer a amar, pelo menos assim…
Maria era mentirosa, mentirosa de si, mentirosa para si.
Maria chorou mais um dia e mais uma noite, deitou para fora todo o negrume que a consumia. E no dia seguinte, quando acordou, era a mesma Maria de sempre, de nariz empinado e com a razão na ponta da língua, mas com um espaço por preencher…


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Eu tenho uma amiga que se chama Maria - Parte IV, De Improviso


Hoje sai de sua casa com um sorriso nos lábios! Maria fazia-me rir com aquele seu jeitinho de menina, tímida e com dificuldade para fazer sair de si as palavras. Era engraçado como gesticulava quando estava entusiasmada ou como a expressão do seu rosto mudava quando o assunto não lhe agravada ou quando olhava para cima e procurava a palavra certa! O seu corpo falava!
Quando cheguei, estava inquieta, mais do que nos outros dias! Confesso que aquele mundinho em que vivia, por vezes afligia-me!
Com um sorriso nos lábios e o pânico plantado no rosto, perguntou-me:
"Já te falei de improvisos?"
E, sem sequer me deixar responder, continuou:
"Ele roubou-me um beijo!" - Agora, para além de gesticular, andava de um lado para o outro no minúsculo corredor que dava acesso à casa-de-banho!
"De onde veio ele? Já estava ali? É que só hoje o vi!"
Mas... Pergunto-me eu: Quem era ele???
Quem diria que Maria se tornaria poetiza, assim, de improviso!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A nona inspiradela

Foto por Ruben Ferrara Barulho



No caminho de casa, aquele em que já nem reparo por o saber de cor (mesmo sem o conhecer), pensava em como de repente saímos dos bastidores e nos tornamos animais de palco! Criamos os nossos personagens, representamos, imitamos, mentimos, somos heterónimos de nós próprios, homónimos do eu que nos dá nome... E nesta agastada pandemia solitária, damos por nós completamente dedicados à análise diária do próprio umbigo...

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Um crime passional (ela)

Mordeu o lábio e saboreou o sangue que dele irrompia! A que sabia? Era doce, com travo metálico e uma pitada de flor de sal, que gostoso recital! Queria mais! Afinal, é necessário degustar para saber apreciar! Mordeu, mordeu, mordeu! QUE DOR! (Que prazer?) Que impulso libertino! Pobre lábio dilacerado, tentador autoflagelo!
Era caso para ter medo! Não dos actos, mas da própria inconsequência, porque no final tinha fome!

sábado, 2 de janeiro de 2010

Por outro lado

Maria, a aparição

Chegaste aqui toda lançada,
prepotente e mal-encarada.
Ar nobre de francesa,
roupa chique e perfumada.
Melhores lojas de Lisboa?
Tenda rasca, Feira da Ladra?
Antecipas qualquer moda
Pop-chunga ou Alta Roda.
Os saltos-altos que te anunciam
Altivam ainda mais essa pancada.

Mas há qualquer coisa que em ti me fascina
além das tuas roupas e adereços.
À luz do foco que te ilumina,
ar de puta sacra, mulher divina
senhora de si e dos seus preços.

O teu cabelo negro escorrido.
Os teus olhos de preto pintados.
De cigarro na boca vieste ter comigo.
Esse isqueiro não quer ser mais teu amigo
Vieste pedir isqueiro emprestado.

O tempo pára como por magia.
Fixas-me esse teu olhar de ninfeta.
Mulher fatal, musa maior da poesia.
"Não sou uma puta, chamo-me Maria"
"Boa noite, sou o Vicente e sou poeta".


Por José Brito em: http://osedutorfarsolas.blogspot.com/


sábado, 26 de dezembro de 2009

Eu tenho uma amiga que se chama Maria - Parte III, O Corpo Nu

Desenho a carvão por Inês Correia, prestes a ser pendurado na parede do meu quarto.

Não me lembro de ter tirado a roupa, mas ele também estava ali, nu, mesmo à minha frente.

Era um final de tarde, assim como o de hoje, próximo do Natal, saí de casa mas não tinha para onde ir. Enfiei-me no carro e andei às voltas, à toa, sem rumo, sem Norte sequer sem Sul.
A cidade parecia impressionantemente deserta, sóbria, satisfeita, apenas as luzes de Natal a desgastavam! Parei junto ao cais velho para fumar um cigarro, fumei três! Gostava daquele sítio, era o meu espaço utópico, símbolo da minha evasão…
Não sei o que ele fazia ali, não recordo como me abordou, mas durante horas fez-me companhia e fiquei a conhecer as suas “questões profissionais” que o fazem ter “o hábito (quase) inato de contar ao ritmo dos segundos”.

Quando sai do seu apartamento, sorri e dentro de mim alguém disse: “Tens a manha de uma puta e a interrogação de uma criança.”

No fundo, foram apenas reflexões sobre prazeres ocultos… Para ele, um facto consumado, para mim, uma descoberta…

Consegues perceber-me? - Perguntou-me Maria.

- Não sei... E tu consegues perceber-te?

Maria era mentirosa.
Maria a mentirosa.
Maria tinha a mania de mostrar a sua manha, mas ela só queria que um dia, o despertador não tocasse e pela manhã ela acordasse, num sítio onde alguém a confortasse, sem fazer perguntas, sem esperar respostas…

A oitava inspiradela

... É como se tivesse uma grande necessidade de desenvolver a minha travessia no deserto...

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Coisas

Foto por José Brito

"Não há dúvida que andamos todos desconcentradosdeve ser do frio, digo eu! Não seieu tenho calor…."

sábado, 12 de dezembro de 2009

Eu tenho um amiga que se chama Maria - Parte II, A Metamorfose


Finalmente ela encontrara-o!

Em mais um final de tarde de conversas com Maria, descobri que realmente existem coisas que é melhor nem questionar. A sua origem, apesar de duvidosa, era como a chuva que cai do céu, fresca, de acidez moderada e por vezes muito inesperada.
Fiquei curiosa porque no nosso último encontro, deixou que ficassem a pairar na minha cabeça inúmeros pontos de interrogação, tinha sempre esta mania de me fazer pensar nas entrelinhas, “Exercita o cérebro”, dizia-me ela!

- Porque falas em coincidências sistemáticas?

Com uma ginástica impressionante, deu meia volta sobre a sua anca e levantou-se da soleira da janela com vista para o mar onde estávamos sentadas. Naquele momento não tive medo de cair, segui-a com os olhos e fiquei a contemplar a maneira como caminhava... Maria foi buscar aquilo que ela, com aquele sotaque italiano que me fascinava, chamava Libreria degli innocenti.

Coincidência [kwí]
nome feminino
1.acto ou efeito de coincidir; simultaneidade
2.estado de duas ou mais coisas que se ajustam perfeitamente
3.concomitância acidental de dois ou mais fenómenos; acaso
(De co-+incidência)

Sistemático
adjectivo
1.pertencente ou relativo a um sistema
2.posto em sistema
3.que obedece a determinado sistema
4.figurado metódico; ordenado
5.figurado que segue sem interrupção; constante; regular
(Do gr. systematikós, «id.», pelo lat. systematìcu-, «id.»)

- E agora? Perguntei eu.

- O meu agora com ele já existiu, aconteceu, como tantas outras coisas já aconteceram em mim, o agora figurado em depois não interessa! Creio que a nossa coincidência não foi o estado de duas coisas que se ajustam perfeitamente, mas sim a concomitância acidental dos nossos fenómenos. Para dizer a verdade e saltando a linearidade das definições, foi uma espécie de 2 em 1, a purificação e o pecado.
  • A sua metamorfose começava aqui. Naquele momento olhei para Maria, recordei o jeitinho como há pouco caminhara… Ela movia-se com a mesma subtileza de uma borboleta voraz!

(Poder-se-á chamar coincidência a algo que o acaso ainda não consegue contemplar??)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Eu tenho uma amiga que se chama Maria - Parte I



Maria esteve todo o dia à sua espera, ele era fruto do seu desejo, motor da sua imaginação, era a sua coincidência sistemática e o seu desígnio, ele era a ponte para a sua transformação e o traço intermitente da sua estrada.
Maria esteve todo o dia à sua espera mas sabia que não devia.
Maria esteve toda a noite à sua espera…

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Até que a morte nos separe

O despertador. Como odeio o meu despertador! Aquele trimmmmmmmm que interrompe o sono, os sonhos, que tira da cama o corpo que ainda precisa de descanso, que despede o amor, o abraço, o conforto.
Lá vão os tempos em que os despertadores eram cuidadosamente colocados em cima da mesinha de cabeceira e todas as noites acertados com a pouca precisão que lhe era permitida. Recordo-me ainda do despertador azul bebe redondo com duas campainhas que anos a fio, sempre à mesma hora, despertou Maria, mais conhecida por Bia, a minha avó paterna. A chegada dos despertadores digitais, ou o famoso 2 em 1 rádio-despertador, libertou-a do terrível tic-tac que lhe desgastava as noites e provocava insónia! Contudo, a troca ou substituição foi comedida, o despertador azul bebe, que era considerado relíquia da casa, já não se fazia ouvir mesmo junto ao ouvido direito mas, ficou bem perto do tecto, em cima do guarda-fato. O melhor despertador que alguma vez tive e continuo a ter, é o mãe-despertador, bem personalizado, com modo de repetição e com aquele jeitinho especial para o acordar sobressaltado! Apesar de toda a excelência do mãe-despertador não posso esquecer o inovador telemóvel-rádio-internet-tv-despertador com as suas todas e mais alguma vantagens! Mas, por mais avançada que seja a sua tecnologia, o único momento em que consigo amar o meu despertador, é quando me desperta de pesadelos!
Os meus sonhos são sempre muito difusos, umas noites tácitos outras cobertos por uma profunda apatia que se prolonga pela manhã, que provocam angústia, que são memoráveis quando não deviam ser.
Uma noite sonhei com Luísa, uma vizinha do r/c que há meses se pronunciava sobre a sua cama forrada com lençóis cor-de-rosa, construindo nela o seu leito de morte. Nessa noite sonhei que Luísa tinha morrido, na manhã seguinte Luísa morreu.
Sei que não existe o momento certo. A vida é efémera, ou mais que isso, é até que a morte nos separe.
A morte. Como odeio esta sensação de que a qualquer momento a morte vai surgir! É como aquele trimmmmmmmm que interrompe o sono, os sonhos, que atira o corpo em eterno descanso, que despede o amor, o abraço, o conforto.


quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Sucessões de Ordem n

Pensamento de Primeira Ordem:

A falsa verdade ou a estranha mentira?

Pensamento de Segunda Ordem:

Sinto-me a divagar devagar pelas entranhas dos estados mais remotos,

Pensamento de Terceira Ordem:

Imagino que sou um bicho, um bicho de faz de conta

Pensamento de Quarta Ordem:

Tenho sentimentos retraídos pela infância.

Pensamento de Quinta Ordem:

Gosto de quando gostamos do nosso cheiro, mesmo quando cheiramos mal!

Pensamento de Sexta Ordem:

Deitados e despidos sentimos o rigor do ar seco e frio que nos enche pulmões,

Pensamento de Sétima Ordem:

Adormeci e sonhei com a cor do céu que anuncia tempo quente...

Pensamento de Oitava Ordem:

No final, com o cair da madrugada, deixo entrar em mim toda a tua irracionalidade.

Pensamento de Ordem n:

sábado, 3 de outubro de 2009

"Não sei quem sou, que alma tenho"



"Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço."




Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 93.

sábado, 22 de agosto de 2009

A sétima inspiradela

Cada qual com a sua morada. Diz-me a tua morada. Se quiseres podes escreve-la no cantinho deste guardanapo que ainda guarda as memórias degustadas da minha ceia. Não tenhas medo.

Mãe, que guardas ai? Consegui espreitar o fundo da bolsa que carregas e vi os meus sonhos recalcados ou desfeitos, aqueles que de certa forma eram os teus. Estavam bem arrumados. Deixa-me vê-los. Deixa-me matar saudades dos tempos em que ainda conseguia vislumbrar a vivacidade do mundo, aquela que criei, para mim, aquela que ainda hoje me acompanha nas noite de sonhos perturbados. Não me deixes ter medo.

Chamemos as coisas pelos nomes! Como te chamas? Posso rebaptizar-te? O nome que trazes gravado ou não gosto ou tenho medo. O meu? ... Tu sabes!

Foi ao sétimo dia...

sábado, 1 de agosto de 2009

...no entretanto...

Não podia deixar de pendurar este texto, no cantinho mais especial do meu armário, onde o monstro vai quando quer ser feliz...

Para quem quiser saltitar nas reticencias do entretanto... uma viagem a não perder em:
http://www.semprenoentretanto.blogspot.com/

Por Lúcius:

Escritores do Além

Eis que no mundo das pastagens de letras, e blogues em bloco rodeados de contos, suspiros e descontos, surgem as personagens e as personalidades cujas características são, a paixão, a dica, o pensamento e o sabão.
O Sedutor Farsolas, coitado... Tem paixão, atrás de paixão. É perseguido pelo incontrolável momento do "Tão bonita! Não resisto!" Que destino havia Vicente lhe dar. O do desejo de romance infindável. Não te castigues.... A próxima será a da tua farsa.
Vá lá que o Monstro do Armário existe. Este escreve-se com letra grande, porque não é uma personagem, mas sim uma localidade. É o sítio do pensamento filosófico de cabide. Da dica pensada até ao mínimo pormenor. É onde se dá a tempestade da luz matinal que nos aquece a cabeça de fertilizante! Pensem loucos! Na loucura que perdura!
E a transformação? E onde existe a diferença? Onde fica o local das ideias do sim porque gosto, e é assim porque me apetece. Onde o amanhã pode não haver, mas para a próxima já é diferente. As mutações dão-se no cantinho da metamorfose. É onde a sinceridade é sinónimo de vontade. É como decifrar o código dos sonhos. É como cair numa espiral de imagem sem fim e flash profundo. É um oito feito em garra de grifo! É o estado mental em que me conheceste... Como um cenário de reticências
....no entretanto... não desesperem, mais notícias sobre vós, irão aparecer. Porque o que seria um entretanto se não fosse um rascunho e incompleto.
...
Mais coisas sobre:

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A sexta inspiradela - 8 descansado


Teimam em perdurar na minha cabeça, memórias do sítio onde passei qualquer coisa como sete anos a vaguear guiada por uma bússola desmagnetizada da realidade.
Passava, aparentemente atenta, por quem representava no palco de xisto, mas cada sombra branca era apenas mais um sonho, um suspiro, ânsia de crescer, vontade de me amar e absorver a inteligência do mundo. Colmatar o vazio.

Ensinaram-me que há limites que tendem para mais ou menos infinito ou mesmo infinitos sem limite. Suponho que cometi a proeza de calcular o limite...

Cansada...

Esgotada...

Às vezes é mesmo difícil...

quarta-feira, 3 de junho de 2009

De: Maria -->> Para: Vicente

A pedido de uma amiga:

Eu não sou um verso!
Rimo em prosa disfarçada
Mas se a leres ao inverso
Indago-me em ti enamorada.


Maria

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Conversas e outras histórias - Capítulo II

(…)
P - Também quando estamos juntos o tempo passa mesmo a correr!
O cabrão não fuma!
É saudavelzinho.
B - Quem é que não fuma?
P - O tempo
passa a correr!
Se fosse eu ia de carro
bem devagar
por uma estrada secundária
de janela aberta
a ouvir as cigarras
naquela cadencia de retardar e perpetuar o tempo
(a tal história que pediste)
o rádio tocava aquele clássico português que ninguém se lembra
e toda a gente conhece
e que de tempos a tempos se adequa mesmo bem à ocasião
"roendo uma laraaaaaanja na falésia"
as placas não são placas
são de cimento
orladas a tinta preta
e denotam o trabalho das cigarras
pararam o tempo da nossa memoria
quando tínhamos 5 anos
e íamos de chinelos ao fim do dia de Verão
pelo asfalto ainda quente em direcção à fonte
buscar água.
Era miúdo e passava férias na aldeia
da Tôr
com os meus primos que vinham da França
e passavam as férias de Verão.
As sombras esticavam-se pela estrada
pois o sol já baixava
a erva era curta e doirada
só os arbustos com picos e espinhos permanecias de pé
prateados como obra de um mestre ourives
todos estes elementos comuns trazem à memoria momentos da infância
e de novo
a estação de rádio
insiste em passar uma música que não ouço há mais de 20 anos
uma música de Verão
"dou-tium doce
em troca de um beijo salgado"
mas entre os montes a captação já não é regular
mas assim que volta
cai exactamente no refrão.
À passagem por um aldeia do interior
páro para comprar água e tabaco
e os velhos
jogam com as mesmas cartas de há vinte e tal anos atrás
daquelas que já não se fabricam
em que as figuras, reis e valetes me são familiares
pois fazem-me recordar as velhas tabernas nas aldeias do interior algarvio
não há coca cola
há spur cola
não há seven up
há sprite em garrafa de vidro baço e esticado de 25cl
há brindes daqueles que se furam o cartão e sai a cor,
na parede brindam-se canivetes
e porta chaves
peço a garrafa de agua à velhota
que diz
são 75 mei'réis
eehhe
de facto disse euros
mas soou diferente
ouve-se os velhos a bater com a mão na mesa para levar a vaza
só ternos e duques
nada de manilhas
arranco de novo
e logo avisto a tabuleta a dizer Beja
já falta pouco para chegar a casa
avisto o viaduto
o passado ficou naquela aldeia.
A minha namorada liga-me
e pergunta se ainda estou demorado
o sol de vez em quando já se esconde por entre os montes naquele território em que não se sabe se é Algarve ou Alentejo
respondo-lhe que não
mas a chamada cai...tmn serviço voice m...
não tarda estamos juntos
é bom viajar de janelas abertas
circula-se mais devagar
e aprecia-se a brisa quente
Chego junto a um carro azul estacionado na minha longa rua ainda iluminada pelo sol
ela esta encostada ao carro
de blusa de alças branca e óculos de sol
(também tem calças
claro
mas não se vê
porque tem outro carro a tapar)
estaciono junto a ela e sorrimos.
Ela sorri da mesma
forma e força que o sol iluminou hoje o dia
e beija-me
olá meu b…
...
"histórias de embalar"



História de José Brito. Outras coisas em: http://www.osedutorfarsolas.blogspot.com/

segunda-feira, 2 de março de 2009

(Take the...)

KeyWords: Knowledgement, friendship, roads, music, fell in love; Fear, run, lose, forget (try to); Wake up; Memories, missing, regret, touch, feel... words, flight, music... Love...


Resumo por L.S. a 21 de Julho de 2009:

I fell in love once, but the fear of wake up and see that it was just a dream and you weren’t there by my side made me run, take a flight to nowhere.Now I try to forget that love, but the memories insist to pursue me and the regret is the only word and the only feeling that inhabit on me. I miss you, your touch, your smell, the words that you breath, your smille, your friendship, your love...I still am going by unknown roads, just me, my music and the feeling of emptiness; But the end of my journey is near, because now I know that I can’t live without you…

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Conversas e outras histórias - Capítulo I

B – Quantas vezes adbicaste de alguém ou de alguma coisa por teres medo de avançar, do desconhecido, de arriscar?

P – Como assim B?
Explica lá!
B – É só uma pergunta. Não tem muito para explicar.
P – Raramente.
B – E em que momentos isso já te aconteceu?
P – Não me lembro
B – O David Fonseca é giro!
P – Tem a sua piada!
Mas conta lá porquê!
B – Estava só a pensar nisso.
P – Conta!
B – Sabes que não vou contar!
Estava a pensar, só isso.
P – Não sei.
B – Estou muito introspectiva hoje...
P – Mas conta...
B – Estava a reflectir porque é que isso me acontece...
Consigo arriscar até um determinado ponto...
P – Mas...
B – Mas depois, muitas vezes, em decisões importantes fico com muitas dúvidas e tenho medo de tomar a decisão final! Esse medo faz com que, siga o caminho errado ou que decidam por mim.
Tenho andado a pensar nisto. Não me tinha apercebido que era assim...
P – E já seguiste o caminho e arrependeste–te por teres ido até ao fim?
B –Tenho a sensação que deixo tudo a meio.
Poucas vezes cheguei ao fim.
P – E foi muito mau?
B – Não, foi bom! Ou se não foi bom, valeu a pena!
P – Então é errado não ir até ao fim?
B – Ah! espera... Percebi mal...
P – É errado ficar a meio?
B – Sim, é errado ficar a meio!
Arranjo desculpas para ficar pelo caminho.
Engano–me.
Envolvo–me num camuflado.
Sigo outro caminho...
A meio paro para descansar. Sem querer olho para trás e reparo que pelo caminho foram caindo pequenas coisas da minha mala de viagem, pequenos fragmentos de mim. Deparo–me com três opções: continuar em frente e esquecer o que perdi, voltar para trás e reaver aquilo que conheço e já me pertenceu ou seguir um novo trilho e construir uma nova história com novos fragmentos.
P – Especifica agora a situação.
B – É uma sensação estranha...
Nenhuma situação específica.

P – Nenhuma?
B – ...Nenhuma...
P – Mas não te sentes bem agora?
B – Sinto–me confusa, angustiada, triste, com um vazio de espírito...
P – Podes falar concretamente...
B – Às vezes acho que só estou "bem" vivendo na minha alegria de ser triste.
P – É mais calmo e não há grandes incómodos de facto, mas falta sempre alguma coisa.
B – Sim... Falta sempre qualquer coisa...
P – Estás a falar de nós ou de outras coisas em geral?
B – Não queria ser tão directa, porque isso não interessa nada, mas como estás a insistir...sim, de nós...
E nem devia falar isto contigo...
P – Mas somos amigos não tens que ter problema em falar disso. Acho...
E há quanto tempo te sentes assim?
B – Sim, somos amigos, acho que não há grande problema... Mas tirando isso é estranho...
Talvez não interesse continuar a conversa, pode não ser correcto estar a dar mais volta a este assunto. Não?
P – Não há problema da minha parte. Aliás, acho que faria bem!
B – Como assim?
P – Sim, compreendermo-nos realmente um ao outro, algumas coisas ficaram por explicar ou compreender!
B – Podemos continuar então.
P – Podemos.
B – Onde íamos?
P – Ficar a meio das coisas.
B – Há uns tempos dei por mim a pensar no que se tinha passado. Em como as coisas mudaram de um momento para o outro, em como sou tão inconstante, em como não me consigo libertar e sair do armário...
O armário é um sitio seguro, não tenho que falar, tocar, sentir, exprimir sentimentos, estou sozinha... Fico só a olhar, pelo buraquinho da fechadura, vejo as horas que passam e respiro com alguma calma, o ar que o buraquinho da fechadura deixa entrar pode não ser suficiente para o tempo que li quero ficar. Estou nervosa, começa a faltar o oxigénio e sufoco… Sobrevivo, mas o que eu queria era ficar ali e sucumbir no meio da bruma que me envolve. Ou então que me salves, sei lá…
È tão ambíguo o que sinto, comparo–o com aquela música do António Variações "estou bem onde não estou…”.Parece que estou sempre à procura de qualquer coisa.
E, no final, resumindo o que disse até agora, tenho medo de me magoar, de num dia me deixar levar e no dia a seguir acordar e ver que tudo mudou... ou de me iludir...
Sou uma grande egoísta...
P – Não percebi a penúltima frase. Medo de estares a amar e já não te amarem?
B – Sim acho que é isso.
P – Eu prefiro que isso me aconteça do que sentir que perdi a possibilidade de saber se era realmente Aquela Pessoa. Mas claro, que há sempre a possibilidade de nos magoarem mas, mesmo que isso aconteça há muita coisa boa partilhada até lá.
B – É... poucas foram as vezes que me dei essa oportunidade...
P – Não te quero ver triste.
B – Isto passa! =)
P – Prefiro estar eu triste a ver–te ou saber que estás assim
B – Tenho dias assim... Só estou assim porque quero.
Até foi bom falar disto, amanhã vou acordar mais leve!
P – A miúda dos Donna Maria tem cá um decote! =)
B – Sim =)
P – Tu também! =)
B – Boa programação esta noite!
P – Contigo é estranho porque parece que nunca houve um fim. Faltou fim!
Não te tenho mágoa, tenho o mesmo carinho de sempre, mais do que isso, gosto de ti, mas é estranho ver–te um ano depois...
B – Apesar de termos sempre mantido contacto, foi estranho para mim também... Mas a minha cabeça ficou cheia de pontos de interrogação pois, por mais que eles já existam, a ausência não os deixava aflorar. Creio que com o tempo voltará ao lugar e fico feliz por pensar em como foste (e és) importante para mim.
Temos uma história bonita e partilhamos boas coisas. Daquelas histórias para contar aos filhos dos meus sobrinhos numa tarde de frio e chuva, assim já a babar pela falta de dentes!! :p
P – O que me irrita é que nem me deste uma oportunidade para lutar por ti, de repente desististe e custa penar que podíamos estar juntos até hoje e continuar a história bonita.
B – Fui muito egoísta, só pensei em mim... mas aconteceu assim...
P – Tu só tens que pensar em ti, ou se gosta ou não se gosta. Mas deixaste de gostar? Ou tiveste medo de gostar ou de te magoar ou a hipótese n.º3?
B – Tive medo de gostar.
Tive medo de me magoar
Tive medo de não me sentir segura
P – Pelo facto de eu ir embora?
B – Também
P – A sério?
B – Resumindo, é a mudança que me assusta.
P – E porque não falaste comigo nessa altura? Pensei que já não gostasses de mim ou que tivesses interessada noutra pessoa ou que simplesmente já estavas farta de mim...
B – Não sei porquê não falei. Não sei se na altura ia ser capaz de dizer alguma coisa coerente... Como gostava de ti... Talvez o meu segundo eu seja masoquista. Não estava farta de ti e não estava interessada noutra pessoa.
P – Saltar agora do comboio antes que fique mais rápido e me magoe ainda mais...
B – Não percebi o sentido dessa frase. Como se fosse eu a falar?
P – Sim.
B – Sim é isso... Desculpa...
P – Não me tens que pedir desculpa, só me custa pensar…
B – Também tenho pena de não nos ter dado uma oportunidade...
P – Que podíamos continuar a ser felizes juntos, porque eu era...
B – Eu também.
P – E não queria mudar quer fosse embora quer não.
B – Tudo se começou a complicar na minha cabeça.
P – E tenho pena que não me tivesses deixado lutar por ti. Mas sempre temos a masturbação e as fantasias eróticas! Pelo menos eu tenho! =)
B – E naquela altura tu também estavas um bocado irregular, com mau feitio e tinha medo de estar a mais na tua vida...
P – Já sabes que para a próxima basta perguntar. Não sou assim tão mau feitiozinho! =)
B – E depois há sempre este meu “pequeno defeitozinho” que não me larga, dou muito de mim e depois penso que poderá ser exagerado... e salto do barco, do comboio, qualquer dia, de um avião!
P – Numa relação há cedências e negociações
B – Masturbação? Cromo! =)
Pois há, mas pelos vistos não sou boa nisso...
P –És muito boa noutras coisas! =)
B – Ui ui!!! :p Mas eu gosto de ser boa em tudo!! Só que não consigo!
Foi bom falar contigo e de todas as maneiras "tristezas não pagam dividas" e a vida tem destas coisas...
P – Mas as 6.ª matam saudades, umas mais que outras!
B – É um dia da semana bastante redondo
P – Redondo?
B – É quase um sinonimo de P! O redondo foi só para enganar!
P – Pois, a 6.ª feira era isso, e ainda hoje tenho dificuldade em saber o que fazer à 6.ª!
B – Eu hoje limpei o quarto! Pode ser sempre uma ideia!
P – Cala–te!
B – É verdade, ficou todo limpinho, também, aqui só para nós, há muito tempo que não via tanta desarrumação no meu quarto e está cheio de coisas e coisinhas e mais coisas! Apetecia–me jogar tudo fora! Ficava apenas com a cama e com o armário!
P – Sim, realmente deves precisar de mais espaço, és muito grande!
Joga tudo fora!
B – Cala–te!
P – Não mandas em mim!
B – Sou grande sim!
Não quero mandar em ti!
P – Há sempre um mais dominante! =)
B – Podem sempre alternar, não se pode ficar sempre por cima!
P – Mas a sério, não quero deixar de estar contigo.
B – Eu também não!
P – Fogo… Não sabes que não se acaba com alguém com quem se dá tão bem na cama? Não é todo o dia que se f*** assim!! Porque para além de f****, faz–se amor, entende–se o corpo e isso é uma expressão dos nossos sentimentos, através da dádiva e da aceitação, do prazer físico.
Corporeo.

Ainda bem que te conheci miúda...


segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

(...) Mas...

"(...) Mas nem sempre vale esse tal de Amor que tanto se fala

Nem sempre cabe no peito o espaço que falta

Porque o Amor nem sempre existe, nem sempre subsiste

Apesar de por vezes jurarmos que o vimos passar

Bem perto de nós, bem juntinho a nós

A ilusão também existe

E também nos faz acreditar, confiar, sonhar

Que o fogo arde no mar e que a maré não pode matar

Para a seguir apagar, anular, desaparecer

Como o ar que se nos escapa de uma respiração

Até não sermos nada

Nem sim, nem um simples... Não."

Ref.: Miguel A. Majer in "Mais que um amor no mundo", 2007

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

(...)


Questiono-me: De que fujo? O que procuro?

sábado, 6 de dezembro de 2008

A Quinta Inspiradela



Às vezes é estranha a sensação que de repente nos assola e nos transforma em vazio, não temos entranhas, o sangue já não nos aquece a pele, não pensamos, não temos querer, somos apenas um objecto oco que anda, fala, come, bebe... Pura mecânica...
Inspiro, mas um dia guardei e hoje não encontro, o procedimento para expirar...

Fly Joe, fly...

Eu espero…espero…e espero…
A pontualidade nunca foi o teu forte.

Eu acredito que existas…
Que merda…Não sou eu agnóstico?

Eu imagino-te…
Fogo… vezes sem conta!

Concebo-te…fantasio-te!
Mas os pobres nunca mereceram o Natal!

Eu procuro-te… ininterruptamente!
Acendam a luz, por favor, está tão escuro…

…Click…

Cegaste-me…E não te conheço a voz…

Eu choro…resigno-me…

Se já não servem para te ver
que outra serventia lhes hei-de dar?



Ref: Vicente Roskopt, 2008 in http://www.osedutorfarsolas.blogspot.com/



Que melhor maneira de homenagear o mestre para além de mostrar a sua obra???

sábado, 15 de novembro de 2008

Bom dia

Foto por Henrique Guilherme, 2008

Acordei numa cama que não me pertence, não consegui dormir muito bem. Não, não foi do colchão ou da almofada a que o meu corpo ainda não se habituou, são estes sonhos que não libertam o sono e despertam a memória recalcada do meu passado. Com algum esforço dei meia volta sobre o meu braço dormente deixando-o sair do seu estado inanimado, reparei que ao meu lado ele, de nariz e queixo pequenos, ainda dormia, serenamente. Fiquei a olhar...
.
'Numa das minhas longas caminhadas por estas ruas onde não se vê viv'alma, concentro-me na música que silenciosamente me faz companhia, esboço um sorriso meio amarelo e o meu olhar nostálgico difunde-se no horizonte daquele caminho sem limite. Recordo a minha infância e a adolescência também, sempre tão tempestuosa e amarga, não fui muito feliz!
Porque falas comigo dessa maneira tão rude? Gosto de ti, porque não mostras que também gostas de mim? Afinal, não fazemos nós parte uma da outra? Sou só um pedaço de ti... Durante todos aqueles meses alimentei-me de ti, cresci dentro de ti e na verdade também te fiz crescer e ficar com aquele arzinho tão gracioso que tinhas! Conseguia ouvir quando me sussurravas baixinho aquela música que ainda hoje me consegue adormecer ou o som da máquina onde costumavas trabalhar. Durante muitas noites dormi na tua cama, ali, os monstros que habitavam o rés-do-chão da minha cama não me incomodavam. Quando acordavas para ir trabalhar, o teu cheirinho ficava na cama, agarrava-me à tua camisa de dormir e sentia-te perto de mim, era isso, queria-te perto! Mas tu nunca me afagaste o cabelo, nunca amparaste o meu choro quando caía e os meus joelhos ficavam a jorrar sangue, nunca me disseste que eu era capaz de enfrentar o mundo, nunca sentiste orgulho de mim, nunca me disseste que tinha tomado a decisão certa, para ti, a critica era o único elogio. Mas, se me engano e se alguma vez fizeste ou disseste alguma coisa que me fizesse sentir especial para ti, lamento, mas certamente as tuas cartas tinham o destinatário errado...'
.
Sabes, partir não é a solução, quero ficar e, tal como alguém um dia, na sua quotidiana Glória, disse, "A Lua vai alta, redonda como um caixote".
.
Ele acordou, levantou-se da cama, ouço uma música que de mansinho me desperta dos meus pensamentos. Sorriu...
"Bom dia!"

sábado, 20 de setembro de 2008

Jonas

Era tão bom passar contigo aqueles finais de tarde sentados na soleira da porta de tua casa. Naquela rua, ainda de terra batida, raramente alguém passava, era estreita, para a atravessar bastavam apenas três ou quatro passos. Mas nós não carecíamos desse espaço, gostávamos de passar ali o tempo, imóveis, com medo de que algum pedacinho dos nossos corpos se tocassem, mas era o medo que nos fazia encontrar!
Ao passar a porta de entrada, esperava-nos um longo e também estreito corredor de paredes altas, com o chão forrado por uma carpete em tons de vermelho e castanho. Bem lá no fundo do corredor havia um aquário, tinha apenas um peixe, pequeno, semi redondo, com manchas negras, chamava-se Jonas. Vivia fascinada por ele, puxava um banquinho e ficava ali sentada, atenta a cada movimento e, esperava por ti...
A tua casa era antiga, das paredes por vezes caiam lascas de cal fina que ficavam penduradas nos nossos cabelos e, aos poucos, com gestos tímidos e lentos, íamos tirando cada lasca, uma a uma. Nunca parávamos de falar, mesmo sem termos combinado, tentávamos que o desconforto do silêncio não caísse sobre nós.
O melhor eram os dias de chuva, por vezes tínhamos vontade de chapinhar na água que se acumulava nos buracos que os meses de Verão não conseguiram tapar, mas não o fazíamos, tínhamos medo, apenas ficávamos ali, sentados, a olhar...
Que idade tinhas mais que eu? 8 anos? 10 anos? 20 anos? Não sei, não recordo, não pensava, só queria que me ensinasses tudo o que sabias...
Passou assim tanto tempo??

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A Quarta Inspiradela


Não recordo bem em que dia decidi que não mais iria tentar compreender porque temos a destreza de complicar, adiar e até esconder aquilo que como alguém disse, "comanda a vida". Um dia estamos bem, no noutro nem por isso. Um dia queremos, no outro fugimos . Um dia pensamos, no outro já nem nos lembramos. Um dia acordamos e já não temos. Uma relação particular entre bem me quer mal me quer em conflito interior.

Talvez não recorde porque inspirar, tem sido sinónimo de sufocar...

..................................................................................


Tenho saudades do Inverno, dos dias de bruma, do céu nublado, do cheirinho a terra molhada, do sabor da chuva e do mar revolto, de sentir a cara gelada e de não sentir o nariz, respirar e ver o calor que brota de dentro do meu corpo, aproveitar e aquecer as mãos na boca, de beber chá na praia enquanto tento entender o mar, de ter conversas que não levam a lado nenhum, de flutuar...

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Os Livros da minha mesa-de-cabeceira


Qual é a coisa que mais tememos no nosso dia-a-dia?

No meu primeiro milésimo de segundo pensante, ocorre-me algo que talvez seja comum à maior parte das pessoas, mais do que me perder, tenho medo de perder alguém. Quando se perde alguém, há também um bocadinho de nós que se perde e, bocadinho a bocadinho, milímetro a milímetro, aos poucos, quase sem sentir a dor dilacerante que nos penetra a pele, perdemo-nos. É assim, uma espécie de morte interior lenta. Espaços que se abrem e que são impossíveis de preencher. É como a morte lenta de uma porta carcomida pelos bichos da madeira. E lá estão eles, desde o início do ciclo de vida da porta. A árvore é serrada do seu habitat, percorre milhares de quilómetros em cima de um camião, jazida na profunda nudez de um simples tronco, até chegar à fabrica onde vai ser processada, tratada quimicamente, talhada, polida, envernizada e certamente tantos outros processos que eu deixei pelo caminho. E o bicho, esse, continua lá. Compramos a madeira transformada numa bonita porta, talhada à nossa medida, uma coisinha aqui, um relevo ali. E o bicho continua lá, adormecido. Até que um dia, por obra e graça do Espírito Santo, criam-se todas as condições, humidade, pressão e temperatura, para o bichinho se desenvolver. (À parte: Depois de ler este post umas módicas quinhentas vezes, fiquei com vontade de saber mais sobre este bichinho adorado de todos nós. Fiz uma pequena pesquisa e, de um certo ponto de vista, o bicho da madeira, ou caruncho, é apenas um artropode xilófago e existem duas espécies, a Hylotrupes bajulus e a Anobium punctatum. Este bicharoco amoroso, ou para não ofender, insecto amoroso, reduz a madeira em pó e alimenta-se da celulose que dela extrai, ou seja, se tivermos uma casa de papel, esta pode passar facilmente de casa a pó. Curiosamente, o bicho da madeira apenas se alimenta na sua fase larvar, escavando autenticos labirintos no interior dos nossos armários, cadeiras, mesas, portas ou camas. Felizmente tenho um monstro no armário! Para não falar do barulho terrível que fazem, poluição sonora, está claro! Mas isso seria um assunto que daria pano para mangas!) Começa então a batalha interminável de todos os pulverizadores contra o bicho da madeira. Gastamos os frascos que forem necessários, mas eles não morrem! E no final, o que resta é apenas uma porta cheia de buracos, que durante anos tentámos tapar.
Outra coisa que tenho medo é de insectos, aracnídeos e tudo o que tenha mais de quatro patas!
E quem não tem medo das longas filas para ir por exemplo às finanças, aos correios ou ao banco? Sim, filas e listas de espera é de ter um medo terrível!! E de filas de livros, alguém tem medo?

No outro dia, disse-me a Renata num tom que achei piada:
"Irra que a tua mesa-de-cabeceira parece a do Marcelo Rebelo de Sousa!"
Eu ao principio ainda pensei que ela tivesse andado a fazer, sabe-se lá o quê no quarto daquele que, para mim, melhor sabe monologar neste país. Mas não, disse-me a Renata que um dia tinha ouvido o Marcelo dizer na televisão que tinha muitos livros na mesa-de-cabeceira.

Então, temos algo em comum!
O problema é que os meus livros estão em lista de espera. E o que é certo é que há livros para todos os gostos, desde o "Principezinho" ao "O Retrato de Dorian Gray", outros de bolso comprados num sábado de manhã no alfarrabista, outros emprestados e outros que tenho a certeza não vou ler.

Este é um conto de um livro que (felizmente) não passou pela minha mesa-de-cabeceira:

O CORPO NO CABIDE
“Por vezes, ao acordar, sinto que a minha alma não cabe no corpo.”
Ela disse isso e depois calou-se, como se fosse ficar assim para sempre, como se tivesse esgotado tudo o que lhe restava para dizer até ao fim da vida. A frase, lançada com frieza no silêncio húmido do quarto, produziu uma pequena escuridão no espírito do homem.
“O que significa isso?”
A mulher olhou-o com uma espécie de estranhamento. Ele tentou soltar-se daquele olhar. Cobriu o rosto com o lençol.
Fiz alguma coisa que não devia?”

Momentos antes havia-a abraçado pelas costas, progredindo com cuidado, com vagar, como que atravessa às escuras uma cidade estranha. Incomodara-o que ela n gemesse alto. Queria ouvi-la gemer, gritar. Ela continuou:
“Sinto que o corpo me aperta a alma, sei lá, que está curto, entendes?, como se tivesse adormecido com quinze anos e acordasse aos vinte e cinco ainda com a mesma roupa. Sinto uma grande vontade de despir este corpo e ficar com a alma exposta, inteiramente nua.”
Trazia as unhas pintadas de negro. Ele reparou nisso vagamente inquieto. Lembrou-se quando era criança e acordava no beliche superior do seu quarto, num comboio parado algures no interior de África, e ouvia lá fora, na escuridão à solta, os pequenos ruídos do mato. O corpo da mulher era longo e liso, semelhante ao de um peixe, e de alguma forma igualmente impossível de aprisionar. Uma luz escura fluía dela como de um rio ao entardecer. O homem saltou da cama. O que podia dizer?
“Não compreendo as mulheres.”
Podia ter dito isto, alguma coisa deste género, mas seria demasiado óbvio. Sentou-se em silêncio, no canto mais afastado do quarto, e acendeu um cigarro. Ela sorriu:
“É assim tão difícil entender?”
Podia ter dito, “os homens nunca entendem nada”, mas seria inútil. As mulheres, na verdade, não precisam que os homens as compreendam. Basta que as ouçam. Ele sabia disso e assim continuou calado. Ela via-o, ali, no canto do quarto, meio encoberto pelo fumo do cigarro.
“Às vezes gostaria de poder despir este corpo. Despia-o e pendurava-o num cabide, no armário, ao lado dos vestidos que nunca mais voltarei a usar. Cuidaria dele aos Domingos de chuva, de manhã, quando me afligissem as saudades destes dias. Ou talvez simplesmente, o esquecesse. Farias amor com a minha alma nua?”
Aborrecia-o que ela n tivesse gritado. A mulher possuía um corpo intenso e vibrante (sim, havia vibrado nos seus braços), mas ao mesmo tempo parecia tão distante dele quanto um navio pousado na linha do horizonte. Não um navio qualquer: ele via-a como uma transatlântico, uma vasta cidade de espelhos e cristais, com as suas festas junto à piscina, os jantares no grande salão, os bailes de máscaras, os inúmeros assombros nos quais nunca conseguiria penetrar. Pensar nisso deu-lhe vontade de chorar. Esfregou os olhos. Murmurou:
“Vou deixar de fumar.”

Não viajara jamais num transatlântico. Sentia-se em relação a ela como o pequeno peixe-pescador, um peixe dos abismos oceânicos, cujo macho se une à fêmea com tal paixão que chega a prescindir do próprio corpo. Também ele dependia inteiramente dela. Ela, no entanto, só o achava interessante enquanto o tinha na cama. Pensou tudo isto no breve espaço que levou a acender outro cigarro. Deixaria de fumar no primeiro dia do ano. Não voltaria a fumar.
“Responde. Farias amor com a minha alma nua?”
Nos últimos meses aguardava num secreto terror por aquela pergunta. Ou melhor, se quisermos ser precisos, por uma pergunta naquele tom de voz, não exactamente com tais e tais palavras. O tom de voz é quase sempre mais importante do que a mensagem. O homem chamava-lhe – refiro-me à pergunta – o enigma final. A Esfinge afiava os dentes, “decifra-me ou devora-me”, e o que poderia ele responder-lhe?
“O teu corpo agrada-me muito.”
Seria certamente a resposta errada. Qualquer resposta seria a resposta errada. Ele envelhecera. Estava quase sábio. Compreendeu que faria melhor se continuasse calado. Preferia fingir-se de morto, como alguns animais quando o predador os alcança. Há sempre a possibilidade de que o predador apenas se pretenda divertir com a perseguição. Talvez ele não quisesse realmente a sua carne.
“Estou a assustar-te? Quero que te assustes, sim, gosto de te ver assustado. Agora responde: entre o meu corpo e a minha alma o que escolherias?”
Ele esmagou o cigarro no cinzeiro.
“Porque pintaste as unhas de negro?”
As lagartixas largam a cauda quando se sentem cercadas e a fuga não parece possível. Pode ser que o predador se interesse pela cauda, a qual, durante alguns segundos, se sacode e salta como uma coisa viva e autónoma, e então consigam esgueirar-se. Ele largou a pergunta como uma lagartixa largaria a cauda. A mulher porém não se deixou iludir:
“Responde!”

O homem compreendeu que estava perdido. Nos últimos meses tentara preparar-se para aquele instante. Agora, porém, agora que tudo ia realmente acontecer, sabia que não estava preparado. Nunca estaria. Respirou fundo. Precisava de um cigarro. O seu último cigarro. Não esperaria pelo primeiro dia do ano. Fez um esforço para pensar no mar. Num mar calmo, azul-turquesa, sob um grande sol de Verão. A imagem do mar costumava pacificá-lo. O que diria o peixe-pescador à respectiva fêmea se esta decidisse livrar-se dele? Podia dizer-lhe que a amava, que já não conseguia viver sozinho; de facto, coitado, já não conseguiria. A boca do peixe-pescador funde-se à pele que recobre a fêmea; os sistemas vasculares do macho e da fêmea unem-se e o minúsculo macho passa a depender inteiramente do sangue da fêmea para a sua sobrevivência. Transforma-se, digamos assim, num pénis portátil.
O homem sorriu com tristeza; logo a seguir, porém, pensou que um sorriso triste era uma contradição nos termos e esforçou-se por sorrir com ironia. O novo sorriso ficava-lhe mal, como alguém que sobre uma camisa escura, de corte clássico, colocasse uma gravata de fantasia com desenhos do Rato Mickey apunhalando a Minie (algo assim).
“Foi um equívoco, sabias?”
Ele, o pénis portátil, fora com ela para a cama pela primeira vez, à oito meses, graças a um equívoco feliz (poderia dizer, agora, que fora um equívoco feliz?). Não que não a desejasse; desejava-a, sim; mais do que isso, amava-a com uma paixão sem esperança. Uma noite encontrou num congresso e levou-a a jantar. Enquanto consultava o menu, exausto, distraído, a pergunta saltou-lhe dos lábios:
”E depois disto, o que queres fazer? Vamos para a cama?”
Pretendia dizer, é claro, vamos dormir, cada qual na sua cama. Ela não lhe deu, contudo, tempo para se explicar. Olhou-o de frente, com os mesmos olhos cruéis que o olhava agora:
“Vamos.”
Ele enfiou a cabeça no menu para esconder a perturbação. O empregado afastou-se muito direito, muito depressa, e explodiu às gargalhadas na cozinha (é assim, pelo menos, que imaginara a cena). Foram para o quarto dela. Havia uma desordem de roupas sobre a cama. A mulher deixou que o vestido lhe deslizasse até aos pés e ficou nua diante dele, bela como um abismo, a pele negra reluzindo na penumbra.
“Trazias o teu vestido verde, lembras-te?”

Ela não se queria lembrar. Vivia o presente e esquecia o passado. Fazia alarde disso. Atirou o lençol para longe e de novo o esplendor daquele corpo jovem o aterrorizou. A fêmea do louva-a-deus assassina o macho por luxúria. Um louva-a-deus macho ao ser decapitado executa melhor e com mais vagar os movimentos espasmódicos próprios da cópula. A fêmea corta a cabeça ao macho e devora-lhe as entranhas enquanto este se agita ansiosamente para atingir o orgasmo. Em algumas espécies, com a excitação, a fêmea muda de cor e brilha.
A mulher levantou-se e avançou lentamente em direcção a ele. Uma escuridade acesa. Bela como um abismo. Bela como um louva-a-deus fêmea antes da cópula.

Referência: Agualusa J. 2003. O Catálogo das Sombras: Contos. Publicações Dom Quixote. Lisboa. pp. 69 a 76.

domingo, 4 de maio de 2008

Mamã


Dia Mundial da Paz, dia Mundial do Braille, dia dos Reis Magos, dia do Holocausto, dia internacional da Língua Materna, dia Europeu da Vítima de Crime, dia das Nações Unidas para os Direitos da Mulher, Dia Europeu das Vítimas de Terrorismo, Dia Mundial dos Direitos do Consumidor, dia do Pai, Dia mundial da Poesia, Dia Mundial para a Eliminação da Discriminação Racial, Dia Mundial da Floresta, Dia Mundial da Árvore, Dia Mundial do Sono, Dia Mundial da Água, Dia Meteorológico Mundial, Dia do Estudante, Dia do Livro Português, Dia Mundial do Teatro, Dia Nacional do Dador de Sangue, Dia das Mentira, Dia Internacional do Livro infantil, Dia Mundial da Saúde, Dia Nacional dos Moinhos, Dia do Cosmonauta, Dia Mundial da Terra, Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, Dia Mundial do Escutismo, Dia Nacional da Educação de Surdos, Dia da Liberdade, Dia Mundial da Propriedade Intelectual, Dia Mundial da Prevenção e Segurança no Trabalho, Dia Mundial da Dança, Dia Mundial do Trabalhador, Dia da Mãe, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, Dia Internacional do Soldo Programa da Nações Unidas para o Ambiente, Dia Europeu da Música, Dia Mundial da Segurança Social, Dia Nacional da Segurança Social, Dia da União Europeia, Dia Internacional das Famílias, Dia Mundial das Telecomunicações, Dia Internacional dos Museus, Dia da Marinha, Dia Mundial da Diversidade Cultural para o Dialogo, Dia mundial para o Desenvolvimento Cultural, Dia Internacional da Diversidade Biológica, Dia do Autor Português, Dia Europeu dos Parques Naturais, Dia Internacional das Crianças Desaparecidas, Dia internacional da Energia, Dia Nacional da Energia, Dia Mundial do Não Fumador, Dia Mundial da Criança, Dia Internacional das Crianças Inocentes Vitimas de Agressão, Dia Mundial do Ambiente, Dia Nacional do Cigano, Dia de Portugal de Camões e das Comunidades Portuguesas, Dia Mundial de Luta Contra a Desertificação e a Seca, Dia Mundial dos Refugiados, Dia das Nações unidas para o Serviço Público, Dia Olímpico, Dia Internacional Contra o Abuso e o Tráfego Ilícito de Drogas, Dia Internacional de Apoio às Vitimas de Tortura, Dia Nacional do Multimédia, Dia da Força Aérea, Dia da Região e das Comunidades Madeirenses, Dia da Policia de Segurança Pública, Dia Mundial da Cooperação, Dia Mundial do Salvamento, Dia Mundial da População ,Dia dos Avós, Dia Nacional da Conservação da Natureza, Dia Internacional das Populações Indígenas, Dia Internacional da Juventude, Dia Mundial da Fotografia, Dia Internacional para a Memória do comércio de Escravos e sua Abolição, Dia Internacional da Solidariedade, Dia da Herança Europeia do Conselho da Europa, Dia Internacional da Alfabetização, Dia da Solidariedade das Cidades Património mundial, Dia Internacional para a Preservação da Camada de Ozono, Dia Europeu sem Carros, Dia Internacional da Imprensa, Dia Mundial do Turismo, Dia Mundial da Música, Dia Nacional da Água, Dia Internacional das Pessoas Idosas, Dia Mundial da Arquitectura, dia Mundial do Animal, Dia da Implantação da República Portuguesa, Dia Mundial dos Professores, dia Nacional dos Castelos, Dia Mundial da União Postal Universal, Dia mundial dos Correios, Dia Mundial da Saúde Mental, Dia mundial da Luta Contra a Dor, Dia Mundial da Alimentação, Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, Dia da Organização das Nações Unidas, Dia Europeu da Justiça Civil, Dia Mundial da informação sobre o Desenvolvimento, Dia Nacional da Cultura Cientifica, Dia Nacional da Desburocratização, Dia Mundial da Terceira Idade, Dia Mundial da Poupança, Dia de Todos os Santos, Dia da Luta Contra o Cancro, Dia dos Finados, Dia Internacional contra o Fascismo e o Anti-Semitismo, Dia Mundial da Ciência para a Paz e Desenvolvimento, Dia de São Martinho, Dia doa Armistício, Dia Nacional da Língua Gestual Portuguesa, Dia Internacional para a Tolerância, Dia Nacional do Mar, Dia Nacional do Não Fumador, Dia Universal da Criança, Dia Mundial da Televisão, Dia Mundial da Memória das Vítimas das Estrada, Dia Nacional da Cultura Científica, Dia Internacional para a Eliminação da Violência sobre a Mulher, Dia Nacional do Empresário, Dia Mundial da SIDA, Dia da Restauração da Independência, Dia da Filatelia, Dia Internacional de Abolição da Escravatura, Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, Dia Mundial do Voluntário, Dia de Timor-Leste, Dia da Declaração Universal dos Direitos do Homem, Dia Internacional do UNICEF, Dia internacional das Montanhas, Dia Internacional das Migrações!
Dias para todos os gostos!! Qual será o sentido disto, alguém me diz??

E assim acabei por me perder no objectivo desta mensagem, que era simplesmente, Feliz Dia da Mãe, Srª Dona Lúcia que me dás cabo do juízo em mais de metade dos dias que um ano consegue ter!!! :) (Já passou o dia da Mãe mas não faz mal!!)


sábado, 19 de abril de 2008

Prefácio

"O artista é o criador das coisas belas.
Revelar a arte e esconder o artista é o fim da arte.
O crítico é aquele que pode traduzir, de outra maneira ou num novo material, a sua impressão sobre as coisas belas.´
A mais elevada., assim como a mais baixa, forma de crítica é uma espécie de autobiografia.
Os que encontram belas intenções nas coisas belas são os cultos. A esses falta-lhes a esperança.
Existem também os eleitos para quem as coisas belas significam simplesmente beleza.
Um livro nunca é moral ou imoral. Está bem ou mal escrito. E é tudo.
A aversão do século dezanove pelo Realismo é a raiva de Caliban ao ver a sua própria cara no espelho.
A aversão do século dezanove pelo Romantismo é a raiva de Caliban ao ver a sua própria cara no espelho.
A vida moral do homem é, em grande parte, a temática o artista. Mas a moralidade da arte consiste no perfeito uso de um meio imperfeito. Nenhum artista deseja provar alguma coisa. Mas nem as coisas certas podem ser provadas.
Nenhum artista tem simpatias éticas. Num artista a simpatia ética constitui uma imperdoável adulteração de estilo.
O artista nunca é maldoso. O artista pode expressar tudo.
Vício e virtude são para o artista materiais de uma arte.
Do ponto de vista formal, o modelo de todas as artes é a arte do músico. Do ponto de vista sentimental, é o trabalho de uma actor.
Toda a arte é, à vez, superfície e símbolo.
Os que quiserem compreender o símbolo, também correm os seus riscos.
É ao espectador, e não à vida, que cabe realmente reflectir sobre a arte.
A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte demonstra que a obra é nova, completa e vital. Quando os críticos discordam, o artista está de acordo consigo mesmo.
Podemos perdoar um homem por ter feito uma coisa útil, sempre que não a admire. A única desculpa que tem em fazer uma coisa útil é que haja alguém que a admire intensamente.
Toda a arte é completamente inútil."

Oscar Wilde


Referência: Wilde O (1997). O retrato de Dorian Grey. EDICLUBE, pp. 5 e 6.


Acredita que gostei!! :)