sábado, 15 de novembro de 2008

Bom dia

Foto por Henrique Guilherme, 2008

Acordei numa cama que não me pertence, não consegui dormir muito bem. Não, não foi do colchão ou da almofada a que o meu corpo ainda não se habituou, são estes sonhos que não libertam o sono e despertam a memória recalcada do meu passado. Com algum esforço dei meia volta sobre o meu braço dormente deixando-o sair do seu estado inanimado, reparei que ao meu lado ele, de nariz e queixo pequenos, ainda dormia, serenamente. Fiquei a olhar...
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'Numa das minhas longas caminhadas por estas ruas onde não se vê viv'alma, concentro-me na música que silenciosamente me faz companhia, esboço um sorriso meio amarelo e o meu olhar nostálgico difunde-se no horizonte daquele caminho sem limite. Recordo a minha infância e a adolescência também, sempre tão tempestuosa e amarga, não fui muito feliz!
Porque falas comigo dessa maneira tão rude? Gosto de ti, porque não mostras que também gostas de mim? Afinal, não fazemos nós parte uma da outra? Sou só um pedaço de ti... Durante todos aqueles meses alimentei-me de ti, cresci dentro de ti e na verdade também te fiz crescer e ficar com aquele arzinho tão gracioso que tinhas! Conseguia ouvir quando me sussurravas baixinho aquela música que ainda hoje me consegue adormecer ou o som da máquina onde costumavas trabalhar. Durante muitas noites dormi na tua cama, ali, os monstros que habitavam o rés-do-chão da minha cama não me incomodavam. Quando acordavas para ir trabalhar, o teu cheirinho ficava na cama, agarrava-me à tua camisa de dormir e sentia-te perto de mim, era isso, queria-te perto! Mas tu nunca me afagaste o cabelo, nunca amparaste o meu choro quando caía e os meus joelhos ficavam a jorrar sangue, nunca me disseste que eu era capaz de enfrentar o mundo, nunca sentiste orgulho de mim, nunca me disseste que tinha tomado a decisão certa, para ti, a critica era o único elogio. Mas, se me engano e se alguma vez fizeste ou disseste alguma coisa que me fizesse sentir especial para ti, lamento, mas certamente as tuas cartas tinham o destinatário errado...'
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Sabes, partir não é a solução, quero ficar e, tal como alguém um dia, na sua quotidiana Glória, disse, "A Lua vai alta, redonda como um caixote".
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Ele acordou, levantou-se da cama, ouço uma música que de mansinho me desperta dos meus pensamentos. Sorriu...
"Bom dia!"