segunda-feira, 25 de abril de 2011

As Ilhas (III)




Disse a enfermeira que a filha ser-lhe-ia muito apegada, por isso, por mais força que a Mãe fizesse para ela sair, a pequena criatura voltava a entrar! "Era uma moça nova quando o cancro a levou", recordou a Mãe, a enfermeira que, literalmente, lhe galgou a barriga para a Filha sair.
Mais certas não seriam as palavras da sábia enfermeira, nos três meses que sucederam o feriado, a Filha apenas dormia aconchegada no regaço da Mãe, queria ficar de novo dentro dela
Naquele dia, o cordão umbilical que as unia foi cortado, um corpo ficou vazio, o outro despido. A Filha já não se alimentava das entranhas da Mãe e, embora fosse abundante o leite que jorrava dos seus pequenos seios, a Filha ficou com fome
Alegria! Melancólica tristeza que não cabe em si
Ainda hoje não concebe aquilo que as une, serão os tais laços de sangue? Instinto? Sente-lhe o cheiro e fica confortada. Sente-se unida à Mãe. Pelo Coração? Pela Alma? Pelo Umbigo? Já tentou, mas de nenhum modo consegue lidar com a imagem de um dia a Mãe deixar de existir, que será da Filha sem a Mãe? Sempre que pensa nisso ficam-se-lhe os olhos a lacrimejar, o coração apertado, a alma pequena, sofre por antecipação, pois salvo as leis da natureza se rejam ao avesso, sabe que um dia será só a Filha, que um dia foi Filha da Mãe.
Parou de caminhar, imaginou o Pai no dia em que deixou as grandes viagens pelo oceano.