quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

As Ilhas (II)


A avó nem sempre tinha boa vontade, tinha feitio rude, áspero, moldado pela dureza do sol que todos os dias lhe amaciava o rosto. Talvez nos tempos que corriam a fome fosse mais ácida que uma maçã verde, manifesta como as tempestades que traziam os homens para terra e, talvez por isso, na mesma condição que uma matriarca aprova uma refeição, a avó, desaprovasse o nascimento da pequena Filha.
O Pai tinha-se iniciado nestas aventuras de mar em 1974, como já havia dito, mas foi no período entre 1977 e 1982 que andou a pernoitar pelas águas cálidas das Canárias. Cinco anos passaram e pouco ficou a conhecer, apenas memórias de portos, uma ou outra paisagem e do que ao longe avistava. Ainda hoje padece dessa estranha maneira de viajar sem conhecer o mundo! Será que era o que queria ou apenas as vicissitudes da vida o levaram lá?
Voltando à Filha. Nasceu no Outono, no dia que se diz dos mortos mas que na verdade é dos Santos, facto que normalmente se confunde! Nesse dia madrugou e viu pela primeira vez os primeiros raios de sol do dia. Na cabeça não trazia um único cabelo, nasceu aliada às árvores de folha caduca, que nesse ano, já sentiam que o rigoroso Inverno queria chegar mais cedo. Talvez pela rigidez do ar frio a Filha não quisesse sair de dentro do corpo quente da Mãe, que nesse dia experimentou, pela segunda e última vez, o misto de prazer emocional e dor física do parto.
Era feriado e o Pai tinha mais uma razão para comemorar, nessa noite, como todos os pais fazem quando nasce um filho, brindou.
Por entre as histórias que a Filha nunca soube ou porque os pais esqueceram ou porque apenas não querem recordar, ficou um objecto perdido, embora nunca esquecido, num qualquer canto da pequena casa, que ainda hoje faz as delicias da sua imaginação.
Soube a Filha, por alguém que sabe como se faz, que dentro de pouco tempo vai dar asas à sua imaginação.