quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

As Ilhas (I)


Naquela altura ela ainda não tinha nascido.
Eles eram três, viviam numa pequena casa, numa pequena aldeia, onde o grande mar entrava.
A Mãe, passava o tempo entre engenhocas têxteis e educar, por dois, o Filho, tarefa árdua que não demorou em entender. O Pai, desde a Revolução, ano em que o Filho nascera, passava os dias, lá bem no meio do oceano, de olhos postos na nostalgia do horizonte, recebia sermões dos peixes e encantava sereias.
O ano em que ela nasceu, foi o último que o Pai trabalhou lá para os lados das Canárias. O Pai era alto, tinha a pele morena e os olhos verde camaleão, apetecível para a Mãe a qualquer instante, mas sempre longe, quis o destino que assim fosse. Ainda hoje o Pai está sempre longe e a Mãe passa o tempo entre engenhocas têxteis e apreciar o fruto da tarefa árdua que durante anos cumpriu com destreza e brio. Queriam eles outro destino? Alguns meses antes do Pai voltar para casa com o objectivo de ver a Mãe todas as semanas, incidentes de uma noite de tempestade, levara-o a atracar numa das ilhas do arquipélago, não sei o que viu, com quem esteve, o que fez, com que se fascinou, no que pensava mas, na mala da roupa suja, trouxe uma pequena recordação para casa.
Agora já eram quatro, mudaram de casa e embora continuasse a ser pequena era na mesma pequena aldeia mas, desta vez, um pouco mais longe de onde o mar entrava.
A Filha saíra ao Pai e apesar de não ser alta, conservara o melhor, os olhos verde camaleão, já herdados pelo Pai à avó.

Sem comentários: