quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Eu tenho uma amiga que se chama Maria – Parte V, Vicente

Encontrei Maria na cama, enrolada em mil lençóis, numa escuridão podre envolta em odores de mofo! Nunca a vira assim! Nunca… Onde estava a mulher confiante, arrebatadora, forte? Onde estava Maria?
-Maria?
Não me respondeu, não me encheu o cérebro com palavras como era habitual, não falava, não se mexia, apenas saia debaixo dos lençóis um pequeno murmurinho de choro soluçado.
-Maria?
Deixei a porta semi-aberta e entrei na imensidão daquele quarto onde nada se encontrava, o caos rodeava-a, abri a janela e deixei entrar o sol como ela tanto apreciava.
-Maria?
Aproximei-me da cama e por cima daquele emaranhado de roupa, colei-me a ela e abracei-a. Sentia a sua respiração, trémula, húmida de tanto chorar, a cara estava inchada, vermelha, deformada. Maria tinha sido substituída por outra Maria que não era aquela que eu conhecia!
-Maria… conta-me!
E Maria contou-me…
-Já te falei do Vicente?
Desta vez, Maria deu-me tempo para fazer um gesto de negação com a cabeça!
-Conheci Vicente da mesma forma que tantos outros. Naquela noite a casa estava cheia, reparei num homem alto de cabelo comprido que fumava um cigarro como quem delicia a melhor iguaria do mundo! Estava acompanhado, mesmo assim, durante toda a noite segui os seus movimentos. Teimei em olha-lo fixamente, queria que também me visse! E viu-me, viu-me e parece que o afugentei! De repente… procurei, mas já tinha saído!
Não me saiu da cabeça, e entre manhas e artimanhas, pus em prática os meus dotes de investigadora e, lá estava ele! Fomo-nos aproximando, descobrindo, sarando feridas em comum, era uma compreensão mútua, ele encaixava em mim, que bem que ele encaixava em mim! Provei-o vezes sem conta, ele era a minha redenção, libertação, forma de expressão, era prosa, poesia, era Música! Exaustos, caíamos na cama, ou no que restava dela, e era como se de repente só existíssemos nós! O seu cheiro ficava entranhado em mim, e mesmo sem querer, ele era já parte de mim, enrolava-me nele e adormecia…
Apaixonei-me por ele, amava-o, até!
Sabes como sou, aprecio o meu canto, cingir-me a mim e resolver as minhas questões assim, como quem faz contas de cabeça, em silêncio! Bem sei que soa a um alter-ego elevado, mas preciso tanto do silêncio como quem precisa de um amigo para falar! Não é fácil perceber, não é fácil aceitar, não é fácil lidar com tanta inquietude… Não foi fácil para Vicente. Ele tentou!
A tristeza no seu rosto era perceptível a milhas… Não, não podia ver Vicente assim, mas eu (quase) nada podia fazer, o meu cérebro continuava em modo de cálculo e que equação de difícil resolução… Se não o libertasse, quantas vezes na vida ia Vicente ficar de rosto caído, triste? Amo-o demais para o fazer sofrer. Deixo que me odeie enquanto me expulsa da sua mente, enquanto limpa o meu cheiro ainda impregnado no seu corpo, enquanto me esquece, mas não deixo que esqueça aquilo que fomos, aquilo que criamos, aprendemos, como crescemos, porque nós… Nós éramos Maria e Vicente!

Maria e Vicente nunca mais se voltaram a cruzar, sequer a amar, pelo menos assim…
Maria era mentirosa, mentirosa de si, mentirosa para si.
Maria chorou mais um dia e mais uma noite, deitou para fora todo o negrume que a consumia. E no dia seguinte, quando acordou, era a mesma Maria de sempre, de nariz empinado e com a razão na ponta da língua, mas com um espaço por preencher…


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Eu tenho uma amiga que se chama Maria - Parte IV, De Improviso


Hoje sai de sua casa com um sorriso nos lábios! Maria fazia-me rir com aquele seu jeitinho de menina, tímida e com dificuldade para fazer sair de si as palavras. Era engraçado como gesticulava quando estava entusiasmada ou como a expressão do seu rosto mudava quando o assunto não lhe agravada ou quando olhava para cima e procurava a palavra certa! O seu corpo falava!
Quando cheguei, estava inquieta, mais do que nos outros dias! Confesso que aquele mundinho em que vivia, por vezes afligia-me!
Com um sorriso nos lábios e o pânico plantado no rosto, perguntou-me:
"Já te falei de improvisos?"
E, sem sequer me deixar responder, continuou:
"Ele roubou-me um beijo!" - Agora, para além de gesticular, andava de um lado para o outro no minúsculo corredor que dava acesso à casa-de-banho!
"De onde veio ele? Já estava ali? É que só hoje o vi!"
Mas... Pergunto-me eu: Quem era ele???
Quem diria que Maria se tornaria poetiza, assim, de improviso!