quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

As Ilhas (I)


Naquela altura ela ainda não tinha nascido.
Eles eram três, viviam numa pequena casa, numa pequena aldeia, onde o grande mar entrava.
A Mãe, passava o tempo entre engenhocas têxteis e educar, por dois, o Filho, tarefa árdua que não demorou em entender. O Pai, desde a Revolução, ano em que o Filho nascera, passava os dias, lá bem no meio do oceano, de olhos postos na nostalgia do horizonte, recebia sermões dos peixes e encantava sereias.
O ano em que ela nasceu, foi o último que o Pai trabalhou lá para os lados das Canárias. O Pai era alto, tinha a pele morena e os olhos verde camaleão, apetecível para a Mãe a qualquer instante, mas sempre longe, quis o destino que assim fosse. Ainda hoje o Pai está sempre longe e a Mãe passa o tempo entre engenhocas têxteis e apreciar o fruto da tarefa árdua que durante anos cumpriu com destreza e brio. Queriam eles outro destino? Alguns meses antes do Pai voltar para casa com o objectivo de ver a Mãe todas as semanas, incidentes de uma noite de tempestade, levara-o a atracar numa das ilhas do arquipélago, não sei o que viu, com quem esteve, o que fez, com que se fascinou, no que pensava mas, na mala da roupa suja, trouxe uma pequena recordação para casa.
Agora já eram quatro, mudaram de casa e embora continuasse a ser pequena era na mesma pequena aldeia mas, desta vez, um pouco mais longe de onde o mar entrava.
A Filha saíra ao Pai e apesar de não ser alta, conservara o melhor, os olhos verde camaleão, já herdados pelo Pai à avó.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Conversas e outras histórias - Capítulo III



8 de Março de 2010, dialogando sobre nada:


“Mulher – Feliz dia da mulher!
Homem – Obrigada! Sabia que não te irias esquecer, as datas sempre foram o teu forte! Feliz dia da mulher, Sr.ª Mulher!
Mulher – Obrigada, mas hoje e, directamente do País das Maravilhas, sou um Homem!
Homem – Fodasse!!!!!!!!! Um homem? O que vale é que é só hoje, senão eu teria sido paneleiro, gay, rabeta, boiola, homossexual, aquele que abafa a palhinha, numa parte da minha história! Ufa!
Mulher – Confessa lá que até tens um fraquinho pelo sexo “oposto”!
Homem – Já viste…
Mulher – Por acaso, creio não conseguir ver muito bem, ou pelo menos já vi melhor, depende do contexto…
Homem – Lá está! Afinal não é o amor que move o mundo, mas sim o contexto!
Mulher – É facto que nunca chegaria a tão brilhante conclusão. Mas ainda tenho esperança que o amor faça mover o meu mundo, em que contexto é que ainda não sei!”

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A décima inspiradela - Comunicar

Foto por João Pedro, 2010

Comunicar.
Desdenhar palavras pela boca como se elas não tivessem fim, como se não se gastassem, como se não servissem para mais nada do que apenas a (i)reflexão de algum sentido traduzida na articulação sonora, esganiçada ou estridente da própria voz.
Dizemos o que sentimos, o que não sentimos e acrescentamos um pouco mais para não parecer que estamos vazios, ou que ignorância das palavras nos atacou!
Para aqueles que têm muito para falar e pouco para comunicar, talvez fosse bom perceber que comunicar não é sinónimo de Falar.
Comunico.
Razões para a falta de palavras: esqueci como se pronunciam, o tempo consumiu-as ou ainda posso aplicar a teoria das amnésias temporárias com causas incertas, que proporcionam a incomodativa sensação de ter as palavras debaixo da língua e não as conseguir dizer e que ainda fazem revirar os olhos como se as procurasse dentro do cérebro!
Será que se eu levantar a minha língua conseguirás ler aquilo que tenho para te dizer e tirar cada palavra, letra a letra, libertando dentro de mim este algo que me enche e transborda?
À falta de ser como aqueles que muito têm para dizer e pouco para comunicar, enquanto as palavras não fluem, dou expressão ao corpo em pequenos movimentos que desenho a carmim.


sábado, 22 de maio de 2010

Alguma coisa contra os meus sapatos verdes?


Saiu à hora do almoço apressada e emproada, onde iria ela tão fresca e retocada?
Subiu a rua de mala ao ombro, de semáforo em semáforo, de lado a lado, de lés a lés, com passos largos, lá ia ela de nariz empinado.
Tocou à campainha. Tinha quarto e almoço reservado para um horário apertado.
Ele abriu-lhe a porta e em silêncio beijou-a,
- Hoje trazes sapatos verdes!
- Alguma coisa contra os meus sapatos verdes?
- Não, mas gosto mais de ti sem eles!
Ele foi almoço, sobremesa, café e cigarro, menu gourmet degustado, suado, mastigado, engolido de uma só vez num espasmo prolongado.
Com um cheiro diferente na pele saiu do quarto, desceu as escadas, desceu a rua, lá ia ela de mala ao ombro, de semáforo em semáforo, de lado a lado, de lés a lés, com passos largos, ela voltava, de nariz empinado, para o mesmo espaço agastado!
Estava de estômago vazio mas de alma repleta, sossegada e saciada!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Página 1

Suponho que a infiabilidade do sistema não nos permite obter resultados seguros da nossa pequena loucura. Ainda, e se me permites, digo-te que somos loucos e nessa loucura classificada como clarividente, existe sempre a hipótese de seguir a tendência ou, numa pequena regressão audaz, aproximar os pontos de forma não linear.
Desafia o risco, promove a consequência, conhece-te.
Beneficia da tua causa e mesmo que não a tenhas, não ponhas em causa a tua existência.
Regista, regista-te, regista o momento, enuncia-o, fica na história, tem uma história para contar!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Foi o tempo de ir e voltar

video

Foi o tempo de ir e voltar.
Foi só o tempo de ir e voltar. Um vou ali e já venho, um volto já na porta da tasca do velho carrasco.
Foi o tempo de ir e voltar. Vai! Vai e não voltes.
Foi o tempo de ir e voltar. Vamos falar! Foi o tempo que separou o tal amor?
Foi o tempo de ir e voltar. A decisão está tomada, o tempo encarrega-se do resto.
Foi o tempo de ir e voltar. Sente o tempo! Sente o tempo a passar por ti. Consegues sentir?
Foi o tempo de ir e voltar. Foi tempo de querer o tempo igual.
O tempo não volta. O tempo já não volta. Não te escondas na revolta, que o tempo não volta igual. Nós somos o tempo, aquele que nos faz, somos dois, mas no tempo do nosso amor, o tempo já não tem par.
Parar.
Recuar.
Hesitar.
O tempo já não nos vai tomar.
(Ou talvez um dia, o tempo nos tome por loucos!)
Avançar.
Inovar.
Amar.
Foi o tempo de ir e voltar. Foi só o tempo de ir e voltar, num instante, num vai e vem ondular. Foi o tempo de ir e nunca mais voltar.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Eu tenho uma amiga que se chama Maria – Parte V, Vicente

Encontrei Maria na cama, enrolada em mil lençóis, numa escuridão podre envolta em odores de mofo! Nunca a vira assim! Nunca… Onde estava a mulher confiante, arrebatadora, forte? Onde estava Maria?
-Maria?
Não me respondeu, não me encheu o cérebro com palavras como era habitual, não falava, não se mexia, apenas saia debaixo dos lençóis um pequeno murmurinho de choro soluçado.
-Maria?
Deixei a porta semi-aberta e entrei na imensidão daquele quarto onde nada se encontrava, o caos rodeava-a, abri a janela e deixei entrar o sol como ela tanto apreciava.
-Maria?
Aproximei-me da cama e por cima daquele emaranhado de roupa, colei-me a ela e abracei-a. Sentia a sua respiração, trémula, húmida de tanto chorar, a cara estava inchada, vermelha, deformada. Maria tinha sido substituída por outra Maria que não era aquela que eu conhecia!
-Maria… conta-me!
E Maria contou-me…
-Já te falei do Vicente?
Desta vez, Maria deu-me tempo para fazer um gesto de negação com a cabeça!
-Conheci Vicente da mesma forma que tantos outros. Naquela noite a casa estava cheia, reparei num homem alto de cabelo comprido que fumava um cigarro como quem delicia a melhor iguaria do mundo! Estava acompanhado, mesmo assim, durante toda a noite segui os seus movimentos. Teimei em olha-lo fixamente, queria que também me visse! E viu-me, viu-me e parece que o afugentei! De repente… procurei, mas já tinha saído!
Não me saiu da cabeça, e entre manhas e artimanhas, pus em prática os meus dotes de investigadora e, lá estava ele! Fomo-nos aproximando, descobrindo, sarando feridas em comum, era uma compreensão mútua, ele encaixava em mim, que bem que ele encaixava em mim! Provei-o vezes sem conta, ele era a minha redenção, libertação, forma de expressão, era prosa, poesia, era Música! Exaustos, caíamos na cama, ou no que restava dela, e era como se de repente só existíssemos nós! O seu cheiro ficava entranhado em mim, e mesmo sem querer, ele era já parte de mim, enrolava-me nele e adormecia…
Apaixonei-me por ele, amava-o, até!
Sabes como sou, aprecio o meu canto, cingir-me a mim e resolver as minhas questões assim, como quem faz contas de cabeça, em silêncio! Bem sei que soa a um alter-ego elevado, mas preciso tanto do silêncio como quem precisa de um amigo para falar! Não é fácil perceber, não é fácil aceitar, não é fácil lidar com tanta inquietude… Não foi fácil para Vicente. Ele tentou!
A tristeza no seu rosto era perceptível a milhas… Não, não podia ver Vicente assim, mas eu (quase) nada podia fazer, o meu cérebro continuava em modo de cálculo e que equação de difícil resolução… Se não o libertasse, quantas vezes na vida ia Vicente ficar de rosto caído, triste? Amo-o demais para o fazer sofrer. Deixo que me odeie enquanto me expulsa da sua mente, enquanto limpa o meu cheiro ainda impregnado no seu corpo, enquanto me esquece, mas não deixo que esqueça aquilo que fomos, aquilo que criamos, aprendemos, como crescemos, porque nós… Nós éramos Maria e Vicente!

Maria e Vicente nunca mais se voltaram a cruzar, sequer a amar, pelo menos assim…
Maria era mentirosa, mentirosa de si, mentirosa para si.
Maria chorou mais um dia e mais uma noite, deitou para fora todo o negrume que a consumia. E no dia seguinte, quando acordou, era a mesma Maria de sempre, de nariz empinado e com a razão na ponta da língua, mas com um espaço por preencher…


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Eu tenho uma amiga que se chama Maria - Parte IV, De Improviso


Hoje sai de sua casa com um sorriso nos lábios! Maria fazia-me rir com aquele seu jeitinho de menina, tímida e com dificuldade para fazer sair de si as palavras. Era engraçado como gesticulava quando estava entusiasmada ou como a expressão do seu rosto mudava quando o assunto não lhe agravada ou quando olhava para cima e procurava a palavra certa! O seu corpo falava!
Quando cheguei, estava inquieta, mais do que nos outros dias! Confesso que aquele mundinho em que vivia, por vezes afligia-me!
Com um sorriso nos lábios e o pânico plantado no rosto, perguntou-me:
"Já te falei de improvisos?"
E, sem sequer me deixar responder, continuou:
"Ele roubou-me um beijo!" - Agora, para além de gesticular, andava de um lado para o outro no minúsculo corredor que dava acesso à casa-de-banho!
"De onde veio ele? Já estava ali? É que só hoje o vi!"
Mas... Pergunto-me eu: Quem era ele???
Quem diria que Maria se tornaria poetiza, assim, de improviso!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A nona inspiradela

Foto por Ruben Ferrara Barulho



No caminho de casa, aquele em que já nem reparo por o saber de cor (mesmo sem o conhecer), pensava em como de repente saímos dos bastidores e nos tornamos animais de palco! Criamos os nossos personagens, representamos, imitamos, mentimos, somos heterónimos de nós próprios, homónimos do eu que nos dá nome... E nesta agastada pandemia solitária, damos por nós completamente dedicados à análise diária do próprio umbigo...

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Um crime passional (ela)

Mordeu o lábio e saboreou o sangue que dele irrompia! A que sabia? Era doce, com travo metálico e uma pitada de flor de sal, que gostoso recital! Queria mais! Afinal, é necessário degustar para saber apreciar! Mordeu, mordeu, mordeu! QUE DOR! (Que prazer?) Que impulso libertino! Pobre lábio dilacerado, tentador autoflagelo!
Era caso para ter medo! Não dos actos, mas da própria inconsequência, porque no final tinha fome!

sábado, 2 de janeiro de 2010

Por outro lado

Maria, a aparição

Chegaste aqui toda lançada,
prepotente e mal-encarada.
Ar nobre de francesa,
roupa chique e perfumada.
Melhores lojas de Lisboa?
Tenda rasca, Feira da Ladra?
Antecipas qualquer moda
Pop-chunga ou Alta Roda.
Os saltos-altos que te anunciam
Altivam ainda mais essa pancada.

Mas há qualquer coisa que em ti me fascina
além das tuas roupas e adereços.
À luz do foco que te ilumina,
ar de puta sacra, mulher divina
senhora de si e dos seus preços.

O teu cabelo negro escorrido.
Os teus olhos de preto pintados.
De cigarro na boca vieste ter comigo.
Esse isqueiro não quer ser mais teu amigo
Vieste pedir isqueiro emprestado.

O tempo pára como por magia.
Fixas-me esse teu olhar de ninfeta.
Mulher fatal, musa maior da poesia.
"Não sou uma puta, chamo-me Maria"
"Boa noite, sou o Vicente e sou poeta".


Por José Brito em: http://osedutorfarsolas.blogspot.com/