quinta-feira, 7 de maio de 2009

Conversas e outras histórias - Capítulo II

(…)
P - Também quando estamos juntos o tempo passa mesmo a correr!
O cabrão não fuma!
É saudavelzinho.
B - Quem é que não fuma?
P - O tempo
passa a correr!
Se fosse eu ia de carro
bem devagar
por uma estrada secundária
de janela aberta
a ouvir as cigarras
naquela cadencia de retardar e perpetuar o tempo
(a tal história que pediste)
o rádio tocava aquele clássico português que ninguém se lembra
e toda a gente conhece
e que de tempos a tempos se adequa mesmo bem à ocasião
"roendo uma laraaaaaanja na falésia"
as placas não são placas
são de cimento
orladas a tinta preta
e denotam o trabalho das cigarras
pararam o tempo da nossa memoria
quando tínhamos 5 anos
e íamos de chinelos ao fim do dia de Verão
pelo asfalto ainda quente em direcção à fonte
buscar água.
Era miúdo e passava férias na aldeia
da Tôr
com os meus primos que vinham da França
e passavam as férias de Verão.
As sombras esticavam-se pela estrada
pois o sol já baixava
a erva era curta e doirada
só os arbustos com picos e espinhos permanecias de pé
prateados como obra de um mestre ourives
todos estes elementos comuns trazem à memoria momentos da infância
e de novo
a estação de rádio
insiste em passar uma música que não ouço há mais de 20 anos
uma música de Verão
"dou-tium doce
em troca de um beijo salgado"
mas entre os montes a captação já não é regular
mas assim que volta
cai exactamente no refrão.
À passagem por um aldeia do interior
páro para comprar água e tabaco
e os velhos
jogam com as mesmas cartas de há vinte e tal anos atrás
daquelas que já não se fabricam
em que as figuras, reis e valetes me são familiares
pois fazem-me recordar as velhas tabernas nas aldeias do interior algarvio
não há coca cola
há spur cola
não há seven up
há sprite em garrafa de vidro baço e esticado de 25cl
há brindes daqueles que se furam o cartão e sai a cor,
na parede brindam-se canivetes
e porta chaves
peço a garrafa de agua à velhota
que diz
são 75 mei'réis
eehhe
de facto disse euros
mas soou diferente
ouve-se os velhos a bater com a mão na mesa para levar a vaza
só ternos e duques
nada de manilhas
arranco de novo
e logo avisto a tabuleta a dizer Beja
já falta pouco para chegar a casa
avisto o viaduto
o passado ficou naquela aldeia.
A minha namorada liga-me
e pergunta se ainda estou demorado
o sol de vez em quando já se esconde por entre os montes naquele território em que não se sabe se é Algarve ou Alentejo
respondo-lhe que não
mas a chamada cai...tmn serviço voice m...
não tarda estamos juntos
é bom viajar de janelas abertas
circula-se mais devagar
e aprecia-se a brisa quente
Chego junto a um carro azul estacionado na minha longa rua ainda iluminada pelo sol
ela esta encostada ao carro
de blusa de alças branca e óculos de sol
(também tem calças
claro
mas não se vê
porque tem outro carro a tapar)
estaciono junto a ela e sorrimos.
Ela sorri da mesma
forma e força que o sol iluminou hoje o dia
e beija-me
olá meu b…
...
"histórias de embalar"



História de José Brito. Outras coisas em: http://www.osedutorfarsolas.blogspot.com/

1 comentário:

Lucius disse...

Grande história! Dos melhores posts que o zezão já escreveu!