sábado, 26 de dezembro de 2009

Eu tenho uma amiga que se chama Maria - Parte III, O Corpo Nu

Desenho a carvão por Inês Correia, prestes a ser pendurado na parede do meu quarto.

Não me lembro de ter tirado a roupa, mas ele também estava ali, nu, mesmo à minha frente.

Era um final de tarde, assim como o de hoje, próximo do Natal, saí de casa mas não tinha para onde ir. Enfiei-me no carro e andei às voltas, à toa, sem rumo, sem Norte sequer sem Sul.
A cidade parecia impressionantemente deserta, sóbria, satisfeita, apenas as luzes de Natal a desgastavam! Parei junto ao cais velho para fumar um cigarro, fumei três! Gostava daquele sítio, era o meu espaço utópico, símbolo da minha evasão…
Não sei o que ele fazia ali, não recordo como me abordou, mas durante horas fez-me companhia e fiquei a conhecer as suas “questões profissionais” que o fazem ter “o hábito (quase) inato de contar ao ritmo dos segundos”.

Quando sai do seu apartamento, sorri e dentro de mim alguém disse: “Tens a manha de uma puta e a interrogação de uma criança.”

No fundo, foram apenas reflexões sobre prazeres ocultos… Para ele, um facto consumado, para mim, uma descoberta…

Consegues perceber-me? - Perguntou-me Maria.

- Não sei... E tu consegues perceber-te?

Maria era mentirosa.
Maria a mentirosa.
Maria tinha a mania de mostrar a sua manha, mas ela só queria que um dia, o despertador não tocasse e pela manhã ela acordasse, num sítio onde alguém a confortasse, sem fazer perguntas, sem esperar respostas…

A oitava inspiradela

... É como se tivesse uma grande necessidade de desenvolver a minha travessia no deserto...

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Coisas

Foto por José Brito

"Não há dúvida que andamos todos desconcentradosdeve ser do frio, digo eu! Não seieu tenho calor…."

sábado, 12 de dezembro de 2009

Eu tenho um amiga que se chama Maria - Parte II, A Metamorfose


Finalmente ela encontrara-o!

Em mais um final de tarde de conversas com Maria, descobri que realmente existem coisas que é melhor nem questionar. A sua origem, apesar de duvidosa, era como a chuva que cai do céu, fresca, de acidez moderada e por vezes muito inesperada.
Fiquei curiosa porque no nosso último encontro, deixou que ficassem a pairar na minha cabeça inúmeros pontos de interrogação, tinha sempre esta mania de me fazer pensar nas entrelinhas, “Exercita o cérebro”, dizia-me ela!

- Porque falas em coincidências sistemáticas?

Com uma ginástica impressionante, deu meia volta sobre a sua anca e levantou-se da soleira da janela com vista para o mar onde estávamos sentadas. Naquele momento não tive medo de cair, segui-a com os olhos e fiquei a contemplar a maneira como caminhava... Maria foi buscar aquilo que ela, com aquele sotaque italiano que me fascinava, chamava Libreria degli innocenti.

Coincidência [kwí]
nome feminino
1.acto ou efeito de coincidir; simultaneidade
2.estado de duas ou mais coisas que se ajustam perfeitamente
3.concomitância acidental de dois ou mais fenómenos; acaso
(De co-+incidência)

Sistemático
adjectivo
1.pertencente ou relativo a um sistema
2.posto em sistema
3.que obedece a determinado sistema
4.figurado metódico; ordenado
5.figurado que segue sem interrupção; constante; regular
(Do gr. systematikós, «id.», pelo lat. systematìcu-, «id.»)

- E agora? Perguntei eu.

- O meu agora com ele já existiu, aconteceu, como tantas outras coisas já aconteceram em mim, o agora figurado em depois não interessa! Creio que a nossa coincidência não foi o estado de duas coisas que se ajustam perfeitamente, mas sim a concomitância acidental dos nossos fenómenos. Para dizer a verdade e saltando a linearidade das definições, foi uma espécie de 2 em 1, a purificação e o pecado.
  • A sua metamorfose começava aqui. Naquele momento olhei para Maria, recordei o jeitinho como há pouco caminhara… Ela movia-se com a mesma subtileza de uma borboleta voraz!

(Poder-se-á chamar coincidência a algo que o acaso ainda não consegue contemplar??)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Eu tenho uma amiga que se chama Maria - Parte I



Maria esteve todo o dia à sua espera, ele era fruto do seu desejo, motor da sua imaginação, era a sua coincidência sistemática e o seu desígnio, ele era a ponte para a sua transformação e o traço intermitente da sua estrada.
Maria esteve todo o dia à sua espera mas sabia que não devia.
Maria esteve toda a noite à sua espera…

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Até que a morte nos separe

O despertador. Como odeio o meu despertador! Aquele trimmmmmmmm que interrompe o sono, os sonhos, que tira da cama o corpo que ainda precisa de descanso, que despede o amor, o abraço, o conforto.
Lá vão os tempos em que os despertadores eram cuidadosamente colocados em cima da mesinha de cabeceira e todas as noites acertados com a pouca precisão que lhe era permitida. Recordo-me ainda do despertador azul bebe redondo com duas campainhas que anos a fio, sempre à mesma hora, despertou Maria, mais conhecida por Bia, a minha avó paterna. A chegada dos despertadores digitais, ou o famoso 2 em 1 rádio-despertador, libertou-a do terrível tic-tac que lhe desgastava as noites e provocava insónia! Contudo, a troca ou substituição foi comedida, o despertador azul bebe, que era considerado relíquia da casa, já não se fazia ouvir mesmo junto ao ouvido direito mas, ficou bem perto do tecto, em cima do guarda-fato. O melhor despertador que alguma vez tive e continuo a ter, é o mãe-despertador, bem personalizado, com modo de repetição e com aquele jeitinho especial para o acordar sobressaltado! Apesar de toda a excelência do mãe-despertador não posso esquecer o inovador telemóvel-rádio-internet-tv-despertador com as suas todas e mais alguma vantagens! Mas, por mais avançada que seja a sua tecnologia, o único momento em que consigo amar o meu despertador, é quando me desperta de pesadelos!
Os meus sonhos são sempre muito difusos, umas noites tácitos outras cobertos por uma profunda apatia que se prolonga pela manhã, que provocam angústia, que são memoráveis quando não deviam ser.
Uma noite sonhei com Luísa, uma vizinha do r/c que há meses se pronunciava sobre a sua cama forrada com lençóis cor-de-rosa, construindo nela o seu leito de morte. Nessa noite sonhei que Luísa tinha morrido, na manhã seguinte Luísa morreu.
Sei que não existe o momento certo. A vida é efémera, ou mais que isso, é até que a morte nos separe.
A morte. Como odeio esta sensação de que a qualquer momento a morte vai surgir! É como aquele trimmmmmmmm que interrompe o sono, os sonhos, que atira o corpo em eterno descanso, que despede o amor, o abraço, o conforto.


quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Sucessões de Ordem n

Pensamento de Primeira Ordem:

A falsa verdade ou a estranha mentira?

Pensamento de Segunda Ordem:

Sinto-me a divagar devagar pelas entranhas dos estados mais remotos,

Pensamento de Terceira Ordem:

Imagino que sou um bicho, um bicho de faz de conta

Pensamento de Quarta Ordem:

Tenho sentimentos retraídos pela infância.

Pensamento de Quinta Ordem:

Gosto de quando gostamos do nosso cheiro, mesmo quando cheiramos mal!

Pensamento de Sexta Ordem:

Deitados e despidos sentimos o rigor do ar seco e frio que nos enche pulmões,

Pensamento de Sétima Ordem:

Adormeci e sonhei com a cor do céu que anuncia tempo quente...

Pensamento de Oitava Ordem:

No final, com o cair da madrugada, deixo entrar em mim toda a tua irracionalidade.

Pensamento de Ordem n:

sábado, 3 de outubro de 2009

"Não sei quem sou, que alma tenho"



"Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço."




Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 93.

sábado, 22 de agosto de 2009

A sétima inspiradela

Cada qual com a sua morada. Diz-me a tua morada. Se quiseres podes escreve-la no cantinho deste guardanapo que ainda guarda as memórias degustadas da minha ceia. Não tenhas medo.

Mãe, que guardas ai? Consegui espreitar o fundo da bolsa que carregas e vi os meus sonhos recalcados ou desfeitos, aqueles que de certa forma eram os teus. Estavam bem arrumados. Deixa-me vê-los. Deixa-me matar saudades dos tempos em que ainda conseguia vislumbrar a vivacidade do mundo, aquela que criei, para mim, aquela que ainda hoje me acompanha nas noite de sonhos perturbados. Não me deixes ter medo.

Chamemos as coisas pelos nomes! Como te chamas? Posso rebaptizar-te? O nome que trazes gravado ou não gosto ou tenho medo. O meu? ... Tu sabes!

Foi ao sétimo dia...

sábado, 1 de agosto de 2009

...no entretanto...

Não podia deixar de pendurar este texto, no cantinho mais especial do meu armário, onde o monstro vai quando quer ser feliz...

Para quem quiser saltitar nas reticencias do entretanto... uma viagem a não perder em:
http://www.semprenoentretanto.blogspot.com/

Por Lúcius:

Escritores do Além

Eis que no mundo das pastagens de letras, e blogues em bloco rodeados de contos, suspiros e descontos, surgem as personagens e as personalidades cujas características são, a paixão, a dica, o pensamento e o sabão.
O Sedutor Farsolas, coitado... Tem paixão, atrás de paixão. É perseguido pelo incontrolável momento do "Tão bonita! Não resisto!" Que destino havia Vicente lhe dar. O do desejo de romance infindável. Não te castigues.... A próxima será a da tua farsa.
Vá lá que o Monstro do Armário existe. Este escreve-se com letra grande, porque não é uma personagem, mas sim uma localidade. É o sítio do pensamento filosófico de cabide. Da dica pensada até ao mínimo pormenor. É onde se dá a tempestade da luz matinal que nos aquece a cabeça de fertilizante! Pensem loucos! Na loucura que perdura!
E a transformação? E onde existe a diferença? Onde fica o local das ideias do sim porque gosto, e é assim porque me apetece. Onde o amanhã pode não haver, mas para a próxima já é diferente. As mutações dão-se no cantinho da metamorfose. É onde a sinceridade é sinónimo de vontade. É como decifrar o código dos sonhos. É como cair numa espiral de imagem sem fim e flash profundo. É um oito feito em garra de grifo! É o estado mental em que me conheceste... Como um cenário de reticências
....no entretanto... não desesperem, mais notícias sobre vós, irão aparecer. Porque o que seria um entretanto se não fosse um rascunho e incompleto.
...
Mais coisas sobre:

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A sexta inspiradela - 8 descansado


Teimam em perdurar na minha cabeça, memórias do sítio onde passei qualquer coisa como sete anos a vaguear guiada por uma bússola desmagnetizada da realidade.
Passava, aparentemente atenta, por quem representava no palco de xisto, mas cada sombra branca era apenas mais um sonho, um suspiro, ânsia de crescer, vontade de me amar e absorver a inteligência do mundo. Colmatar o vazio.

Ensinaram-me que há limites que tendem para mais ou menos infinito ou mesmo infinitos sem limite. Suponho que cometi a proeza de calcular o limite...

Cansada...

Esgotada...

Às vezes é mesmo difícil...

quarta-feira, 3 de junho de 2009

De: Maria -->> Para: Vicente

A pedido de uma amiga:

Eu não sou um verso!
Rimo em prosa disfarçada
Mas se a leres ao inverso
Indago-me em ti enamorada.


Maria

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Conversas e outras histórias - Capítulo II

(…)
P - Também quando estamos juntos o tempo passa mesmo a correr!
O cabrão não fuma!
É saudavelzinho.
B - Quem é que não fuma?
P - O tempo
passa a correr!
Se fosse eu ia de carro
bem devagar
por uma estrada secundária
de janela aberta
a ouvir as cigarras
naquela cadencia de retardar e perpetuar o tempo
(a tal história que pediste)
o rádio tocava aquele clássico português que ninguém se lembra
e toda a gente conhece
e que de tempos a tempos se adequa mesmo bem à ocasião
"roendo uma laraaaaaanja na falésia"
as placas não são placas
são de cimento
orladas a tinta preta
e denotam o trabalho das cigarras
pararam o tempo da nossa memoria
quando tínhamos 5 anos
e íamos de chinelos ao fim do dia de Verão
pelo asfalto ainda quente em direcção à fonte
buscar água.
Era miúdo e passava férias na aldeia
da Tôr
com os meus primos que vinham da França
e passavam as férias de Verão.
As sombras esticavam-se pela estrada
pois o sol já baixava
a erva era curta e doirada
só os arbustos com picos e espinhos permanecias de pé
prateados como obra de um mestre ourives
todos estes elementos comuns trazem à memoria momentos da infância
e de novo
a estação de rádio
insiste em passar uma música que não ouço há mais de 20 anos
uma música de Verão
"dou-tium doce
em troca de um beijo salgado"
mas entre os montes a captação já não é regular
mas assim que volta
cai exactamente no refrão.
À passagem por um aldeia do interior
páro para comprar água e tabaco
e os velhos
jogam com as mesmas cartas de há vinte e tal anos atrás
daquelas que já não se fabricam
em que as figuras, reis e valetes me são familiares
pois fazem-me recordar as velhas tabernas nas aldeias do interior algarvio
não há coca cola
há spur cola
não há seven up
há sprite em garrafa de vidro baço e esticado de 25cl
há brindes daqueles que se furam o cartão e sai a cor,
na parede brindam-se canivetes
e porta chaves
peço a garrafa de agua à velhota
que diz
são 75 mei'réis
eehhe
de facto disse euros
mas soou diferente
ouve-se os velhos a bater com a mão na mesa para levar a vaza
só ternos e duques
nada de manilhas
arranco de novo
e logo avisto a tabuleta a dizer Beja
já falta pouco para chegar a casa
avisto o viaduto
o passado ficou naquela aldeia.
A minha namorada liga-me
e pergunta se ainda estou demorado
o sol de vez em quando já se esconde por entre os montes naquele território em que não se sabe se é Algarve ou Alentejo
respondo-lhe que não
mas a chamada cai...tmn serviço voice m...
não tarda estamos juntos
é bom viajar de janelas abertas
circula-se mais devagar
e aprecia-se a brisa quente
Chego junto a um carro azul estacionado na minha longa rua ainda iluminada pelo sol
ela esta encostada ao carro
de blusa de alças branca e óculos de sol
(também tem calças
claro
mas não se vê
porque tem outro carro a tapar)
estaciono junto a ela e sorrimos.
Ela sorri da mesma
forma e força que o sol iluminou hoje o dia
e beija-me
olá meu b…
...
"histórias de embalar"



História de José Brito. Outras coisas em: http://www.osedutorfarsolas.blogspot.com/

segunda-feira, 2 de março de 2009

(Take the...)

KeyWords: Knowledgement, friendship, roads, music, fell in love; Fear, run, lose, forget (try to); Wake up; Memories, missing, regret, touch, feel... words, flight, music... Love...


Resumo por L.S. a 21 de Julho de 2009:

I fell in love once, but the fear of wake up and see that it was just a dream and you weren’t there by my side made me run, take a flight to nowhere.Now I try to forget that love, but the memories insist to pursue me and the regret is the only word and the only feeling that inhabit on me. I miss you, your touch, your smell, the words that you breath, your smille, your friendship, your love...I still am going by unknown roads, just me, my music and the feeling of emptiness; But the end of my journey is near, because now I know that I can’t live without you…

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Conversas e outras histórias - Capítulo I

B – Quantas vezes adbicaste de alguém ou de alguma coisa por teres medo de avançar, do desconhecido, de arriscar?

P – Como assim B?
Explica lá!
B – É só uma pergunta. Não tem muito para explicar.
P – Raramente.
B – E em que momentos isso já te aconteceu?
P – Não me lembro
B – O David Fonseca é giro!
P – Tem a sua piada!
Mas conta lá porquê!
B – Estava só a pensar nisso.
P – Conta!
B – Sabes que não vou contar!
Estava a pensar, só isso.
P – Não sei.
B – Estou muito introspectiva hoje...
P – Mas conta...
B – Estava a reflectir porque é que isso me acontece...
Consigo arriscar até um determinado ponto...
P – Mas...
B – Mas depois, muitas vezes, em decisões importantes fico com muitas dúvidas e tenho medo de tomar a decisão final! Esse medo faz com que, siga o caminho errado ou que decidam por mim.
Tenho andado a pensar nisto. Não me tinha apercebido que era assim...
P – E já seguiste o caminho e arrependeste–te por teres ido até ao fim?
B –Tenho a sensação que deixo tudo a meio.
Poucas vezes cheguei ao fim.
P – E foi muito mau?
B – Não, foi bom! Ou se não foi bom, valeu a pena!
P – Então é errado não ir até ao fim?
B – Ah! espera... Percebi mal...
P – É errado ficar a meio?
B – Sim, é errado ficar a meio!
Arranjo desculpas para ficar pelo caminho.
Engano–me.
Envolvo–me num camuflado.
Sigo outro caminho...
A meio paro para descansar. Sem querer olho para trás e reparo que pelo caminho foram caindo pequenas coisas da minha mala de viagem, pequenos fragmentos de mim. Deparo–me com três opções: continuar em frente e esquecer o que perdi, voltar para trás e reaver aquilo que conheço e já me pertenceu ou seguir um novo trilho e construir uma nova história com novos fragmentos.
P – Especifica agora a situação.
B – É uma sensação estranha...
Nenhuma situação específica.

P – Nenhuma?
B – ...Nenhuma...
P – Mas não te sentes bem agora?
B – Sinto–me confusa, angustiada, triste, com um vazio de espírito...
P – Podes falar concretamente...
B – Às vezes acho que só estou "bem" vivendo na minha alegria de ser triste.
P – É mais calmo e não há grandes incómodos de facto, mas falta sempre alguma coisa.
B – Sim... Falta sempre qualquer coisa...
P – Estás a falar de nós ou de outras coisas em geral?
B – Não queria ser tão directa, porque isso não interessa nada, mas como estás a insistir...sim, de nós...
E nem devia falar isto contigo...
P – Mas somos amigos não tens que ter problema em falar disso. Acho...
E há quanto tempo te sentes assim?
B – Sim, somos amigos, acho que não há grande problema... Mas tirando isso é estranho...
Talvez não interesse continuar a conversa, pode não ser correcto estar a dar mais volta a este assunto. Não?
P – Não há problema da minha parte. Aliás, acho que faria bem!
B – Como assim?
P – Sim, compreendermo-nos realmente um ao outro, algumas coisas ficaram por explicar ou compreender!
B – Podemos continuar então.
P – Podemos.
B – Onde íamos?
P – Ficar a meio das coisas.
B – Há uns tempos dei por mim a pensar no que se tinha passado. Em como as coisas mudaram de um momento para o outro, em como sou tão inconstante, em como não me consigo libertar e sair do armário...
O armário é um sitio seguro, não tenho que falar, tocar, sentir, exprimir sentimentos, estou sozinha... Fico só a olhar, pelo buraquinho da fechadura, vejo as horas que passam e respiro com alguma calma, o ar que o buraquinho da fechadura deixa entrar pode não ser suficiente para o tempo que li quero ficar. Estou nervosa, começa a faltar o oxigénio e sufoco… Sobrevivo, mas o que eu queria era ficar ali e sucumbir no meio da bruma que me envolve. Ou então que me salves, sei lá…
È tão ambíguo o que sinto, comparo–o com aquela música do António Variações "estou bem onde não estou…”.Parece que estou sempre à procura de qualquer coisa.
E, no final, resumindo o que disse até agora, tenho medo de me magoar, de num dia me deixar levar e no dia a seguir acordar e ver que tudo mudou... ou de me iludir...
Sou uma grande egoísta...
P – Não percebi a penúltima frase. Medo de estares a amar e já não te amarem?
B – Sim acho que é isso.
P – Eu prefiro que isso me aconteça do que sentir que perdi a possibilidade de saber se era realmente Aquela Pessoa. Mas claro, que há sempre a possibilidade de nos magoarem mas, mesmo que isso aconteça há muita coisa boa partilhada até lá.
B – É... poucas foram as vezes que me dei essa oportunidade...
P – Não te quero ver triste.
B – Isto passa! =)
P – Prefiro estar eu triste a ver–te ou saber que estás assim
B – Tenho dias assim... Só estou assim porque quero.
Até foi bom falar disto, amanhã vou acordar mais leve!
P – A miúda dos Donna Maria tem cá um decote! =)
B – Sim =)
P – Tu também! =)
B – Boa programação esta noite!
P – Contigo é estranho porque parece que nunca houve um fim. Faltou fim!
Não te tenho mágoa, tenho o mesmo carinho de sempre, mais do que isso, gosto de ti, mas é estranho ver–te um ano depois...
B – Apesar de termos sempre mantido contacto, foi estranho para mim também... Mas a minha cabeça ficou cheia de pontos de interrogação pois, por mais que eles já existam, a ausência não os deixava aflorar. Creio que com o tempo voltará ao lugar e fico feliz por pensar em como foste (e és) importante para mim.
Temos uma história bonita e partilhamos boas coisas. Daquelas histórias para contar aos filhos dos meus sobrinhos numa tarde de frio e chuva, assim já a babar pela falta de dentes!! :p
P – O que me irrita é que nem me deste uma oportunidade para lutar por ti, de repente desististe e custa penar que podíamos estar juntos até hoje e continuar a história bonita.
B – Fui muito egoísta, só pensei em mim... mas aconteceu assim...
P – Tu só tens que pensar em ti, ou se gosta ou não se gosta. Mas deixaste de gostar? Ou tiveste medo de gostar ou de te magoar ou a hipótese n.º3?
B – Tive medo de gostar.
Tive medo de me magoar
Tive medo de não me sentir segura
P – Pelo facto de eu ir embora?
B – Também
P – A sério?
B – Resumindo, é a mudança que me assusta.
P – E porque não falaste comigo nessa altura? Pensei que já não gostasses de mim ou que tivesses interessada noutra pessoa ou que simplesmente já estavas farta de mim...
B – Não sei porquê não falei. Não sei se na altura ia ser capaz de dizer alguma coisa coerente... Como gostava de ti... Talvez o meu segundo eu seja masoquista. Não estava farta de ti e não estava interessada noutra pessoa.
P – Saltar agora do comboio antes que fique mais rápido e me magoe ainda mais...
B – Não percebi o sentido dessa frase. Como se fosse eu a falar?
P – Sim.
B – Sim é isso... Desculpa...
P – Não me tens que pedir desculpa, só me custa pensar…
B – Também tenho pena de não nos ter dado uma oportunidade...
P – Que podíamos continuar a ser felizes juntos, porque eu era...
B – Eu também.
P – E não queria mudar quer fosse embora quer não.
B – Tudo se começou a complicar na minha cabeça.
P – E tenho pena que não me tivesses deixado lutar por ti. Mas sempre temos a masturbação e as fantasias eróticas! Pelo menos eu tenho! =)
B – E naquela altura tu também estavas um bocado irregular, com mau feitio e tinha medo de estar a mais na tua vida...
P – Já sabes que para a próxima basta perguntar. Não sou assim tão mau feitiozinho! =)
B – E depois há sempre este meu “pequeno defeitozinho” que não me larga, dou muito de mim e depois penso que poderá ser exagerado... e salto do barco, do comboio, qualquer dia, de um avião!
P – Numa relação há cedências e negociações
B – Masturbação? Cromo! =)
Pois há, mas pelos vistos não sou boa nisso...
P –És muito boa noutras coisas! =)
B – Ui ui!!! :p Mas eu gosto de ser boa em tudo!! Só que não consigo!
Foi bom falar contigo e de todas as maneiras "tristezas não pagam dividas" e a vida tem destas coisas...
P – Mas as 6.ª matam saudades, umas mais que outras!
B – É um dia da semana bastante redondo
P – Redondo?
B – É quase um sinonimo de P! O redondo foi só para enganar!
P – Pois, a 6.ª feira era isso, e ainda hoje tenho dificuldade em saber o que fazer à 6.ª!
B – Eu hoje limpei o quarto! Pode ser sempre uma ideia!
P – Cala–te!
B – É verdade, ficou todo limpinho, também, aqui só para nós, há muito tempo que não via tanta desarrumação no meu quarto e está cheio de coisas e coisinhas e mais coisas! Apetecia–me jogar tudo fora! Ficava apenas com a cama e com o armário!
P – Sim, realmente deves precisar de mais espaço, és muito grande!
Joga tudo fora!
B – Cala–te!
P – Não mandas em mim!
B – Sou grande sim!
Não quero mandar em ti!
P – Há sempre um mais dominante! =)
B – Podem sempre alternar, não se pode ficar sempre por cima!
P – Mas a sério, não quero deixar de estar contigo.
B – Eu também não!
P – Fogo… Não sabes que não se acaba com alguém com quem se dá tão bem na cama? Não é todo o dia que se f*** assim!! Porque para além de f****, faz–se amor, entende–se o corpo e isso é uma expressão dos nossos sentimentos, através da dádiva e da aceitação, do prazer físico.
Corporeo.

Ainda bem que te conheci miúda...


segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

(...) Mas...

"(...) Mas nem sempre vale esse tal de Amor que tanto se fala

Nem sempre cabe no peito o espaço que falta

Porque o Amor nem sempre existe, nem sempre subsiste

Apesar de por vezes jurarmos que o vimos passar

Bem perto de nós, bem juntinho a nós

A ilusão também existe

E também nos faz acreditar, confiar, sonhar

Que o fogo arde no mar e que a maré não pode matar

Para a seguir apagar, anular, desaparecer

Como o ar que se nos escapa de uma respiração

Até não sermos nada

Nem sim, nem um simples... Não."

Ref.: Miguel A. Majer in "Mais que um amor no mundo", 2007