sábado, 20 de setembro de 2008

Jonas

Era tão bom passar contigo aqueles finais de tarde sentados na soleira da porta de tua casa. Naquela rua, ainda de terra batida, raramente alguém passava, era estreita, para a atravessar bastavam apenas três ou quatro passos. Mas nós não carecíamos desse espaço, gostávamos de passar ali o tempo, imóveis, com medo de que algum pedacinho dos nossos corpos se tocassem, mas era o medo que nos fazia encontrar!
Ao passar a porta de entrada, esperava-nos um longo e também estreito corredor de paredes altas, com o chão forrado por uma carpete em tons de vermelho e castanho. Bem lá no fundo do corredor havia um aquário, tinha apenas um peixe, pequeno, semi redondo, com manchas negras, chamava-se Jonas. Vivia fascinada por ele, puxava um banquinho e ficava ali sentada, atenta a cada movimento e, esperava por ti...
A tua casa era antiga, das paredes por vezes caiam lascas de cal fina que ficavam penduradas nos nossos cabelos e, aos poucos, com gestos tímidos e lentos, íamos tirando cada lasca, uma a uma. Nunca parávamos de falar, mesmo sem termos combinado, tentávamos que o desconforto do silêncio não caísse sobre nós.
O melhor eram os dias de chuva, por vezes tínhamos vontade de chapinhar na água que se acumulava nos buracos que os meses de Verão não conseguiram tapar, mas não o fazíamos, tínhamos medo, apenas ficávamos ali, sentados, a olhar...
Que idade tinhas mais que eu? 8 anos? 10 anos? 20 anos? Não sei, não recordo, não pensava, só queria que me ensinasses tudo o que sabias...
Passou assim tanto tempo??

1 comentário:

Anónimo disse...

Es impresionante no...
A mulher escreve bem,
desenha bem,
cozinha bem,
hááá e o sorisso, meu Deus o seu sorriso.
Muitos parabéns Ana.
Gostei bastante.