quarta-feira, 11 de junho de 2008

Os Livros da minha mesa-de-cabeceira


Qual é a coisa que mais tememos no nosso dia-a-dia?

No meu primeiro milésimo de segundo pensante, ocorre-me algo que talvez seja comum à maior parte das pessoas, mais do que me perder, tenho medo de perder alguém. Quando se perde alguém, há também um bocadinho de nós que se perde e, bocadinho a bocadinho, milímetro a milímetro, aos poucos, quase sem sentir a dor dilacerante que nos penetra a pele, perdemo-nos. É assim, uma espécie de morte interior lenta. Espaços que se abrem e que são impossíveis de preencher. É como a morte lenta de uma porta carcomida pelos bichos da madeira. E lá estão eles, desde o início do ciclo de vida da porta. A árvore é serrada do seu habitat, percorre milhares de quilómetros em cima de um camião, jazida na profunda nudez de um simples tronco, até chegar à fabrica onde vai ser processada, tratada quimicamente, talhada, polida, envernizada e certamente tantos outros processos que eu deixei pelo caminho. E o bicho, esse, continua lá. Compramos a madeira transformada numa bonita porta, talhada à nossa medida, uma coisinha aqui, um relevo ali. E o bicho continua lá, adormecido. Até que um dia, por obra e graça do Espírito Santo, criam-se todas as condições, humidade, pressão e temperatura, para o bichinho se desenvolver. (À parte: Depois de ler este post umas módicas quinhentas vezes, fiquei com vontade de saber mais sobre este bichinho adorado de todos nós. Fiz uma pequena pesquisa e, de um certo ponto de vista, o bicho da madeira, ou caruncho, é apenas um artropode xilófago e existem duas espécies, a Hylotrupes bajulus e a Anobium punctatum. Este bicharoco amoroso, ou para não ofender, insecto amoroso, reduz a madeira em pó e alimenta-se da celulose que dela extrai, ou seja, se tivermos uma casa de papel, esta pode passar facilmente de casa a pó. Curiosamente, o bicho da madeira apenas se alimenta na sua fase larvar, escavando autenticos labirintos no interior dos nossos armários, cadeiras, mesas, portas ou camas. Felizmente tenho um monstro no armário! Para não falar do barulho terrível que fazem, poluição sonora, está claro! Mas isso seria um assunto que daria pano para mangas!) Começa então a batalha interminável de todos os pulverizadores contra o bicho da madeira. Gastamos os frascos que forem necessários, mas eles não morrem! E no final, o que resta é apenas uma porta cheia de buracos, que durante anos tentámos tapar.
Outra coisa que tenho medo é de insectos, aracnídeos e tudo o que tenha mais de quatro patas!
E quem não tem medo das longas filas para ir por exemplo às finanças, aos correios ou ao banco? Sim, filas e listas de espera é de ter um medo terrível!! E de filas de livros, alguém tem medo?

No outro dia, disse-me a Renata num tom que achei piada:
"Irra que a tua mesa-de-cabeceira parece a do Marcelo Rebelo de Sousa!"
Eu ao principio ainda pensei que ela tivesse andado a fazer, sabe-se lá o quê no quarto daquele que, para mim, melhor sabe monologar neste país. Mas não, disse-me a Renata que um dia tinha ouvido o Marcelo dizer na televisão que tinha muitos livros na mesa-de-cabeceira.

Então, temos algo em comum!
O problema é que os meus livros estão em lista de espera. E o que é certo é que há livros para todos os gostos, desde o "Principezinho" ao "O Retrato de Dorian Gray", outros de bolso comprados num sábado de manhã no alfarrabista, outros emprestados e outros que tenho a certeza não vou ler.

Este é um conto de um livro que (felizmente) não passou pela minha mesa-de-cabeceira:

O CORPO NO CABIDE
“Por vezes, ao acordar, sinto que a minha alma não cabe no corpo.”
Ela disse isso e depois calou-se, como se fosse ficar assim para sempre, como se tivesse esgotado tudo o que lhe restava para dizer até ao fim da vida. A frase, lançada com frieza no silêncio húmido do quarto, produziu uma pequena escuridão no espírito do homem.
“O que significa isso?”
A mulher olhou-o com uma espécie de estranhamento. Ele tentou soltar-se daquele olhar. Cobriu o rosto com o lençol.
Fiz alguma coisa que não devia?”

Momentos antes havia-a abraçado pelas costas, progredindo com cuidado, com vagar, como que atravessa às escuras uma cidade estranha. Incomodara-o que ela n gemesse alto. Queria ouvi-la gemer, gritar. Ela continuou:
“Sinto que o corpo me aperta a alma, sei lá, que está curto, entendes?, como se tivesse adormecido com quinze anos e acordasse aos vinte e cinco ainda com a mesma roupa. Sinto uma grande vontade de despir este corpo e ficar com a alma exposta, inteiramente nua.”
Trazia as unhas pintadas de negro. Ele reparou nisso vagamente inquieto. Lembrou-se quando era criança e acordava no beliche superior do seu quarto, num comboio parado algures no interior de África, e ouvia lá fora, na escuridão à solta, os pequenos ruídos do mato. O corpo da mulher era longo e liso, semelhante ao de um peixe, e de alguma forma igualmente impossível de aprisionar. Uma luz escura fluía dela como de um rio ao entardecer. O homem saltou da cama. O que podia dizer?
“Não compreendo as mulheres.”
Podia ter dito isto, alguma coisa deste género, mas seria demasiado óbvio. Sentou-se em silêncio, no canto mais afastado do quarto, e acendeu um cigarro. Ela sorriu:
“É assim tão difícil entender?”
Podia ter dito, “os homens nunca entendem nada”, mas seria inútil. As mulheres, na verdade, não precisam que os homens as compreendam. Basta que as ouçam. Ele sabia disso e assim continuou calado. Ela via-o, ali, no canto do quarto, meio encoberto pelo fumo do cigarro.
“Às vezes gostaria de poder despir este corpo. Despia-o e pendurava-o num cabide, no armário, ao lado dos vestidos que nunca mais voltarei a usar. Cuidaria dele aos Domingos de chuva, de manhã, quando me afligissem as saudades destes dias. Ou talvez simplesmente, o esquecesse. Farias amor com a minha alma nua?”
Aborrecia-o que ela n tivesse gritado. A mulher possuía um corpo intenso e vibrante (sim, havia vibrado nos seus braços), mas ao mesmo tempo parecia tão distante dele quanto um navio pousado na linha do horizonte. Não um navio qualquer: ele via-a como uma transatlântico, uma vasta cidade de espelhos e cristais, com as suas festas junto à piscina, os jantares no grande salão, os bailes de máscaras, os inúmeros assombros nos quais nunca conseguiria penetrar. Pensar nisso deu-lhe vontade de chorar. Esfregou os olhos. Murmurou:
“Vou deixar de fumar.”

Não viajara jamais num transatlântico. Sentia-se em relação a ela como o pequeno peixe-pescador, um peixe dos abismos oceânicos, cujo macho se une à fêmea com tal paixão que chega a prescindir do próprio corpo. Também ele dependia inteiramente dela. Ela, no entanto, só o achava interessante enquanto o tinha na cama. Pensou tudo isto no breve espaço que levou a acender outro cigarro. Deixaria de fumar no primeiro dia do ano. Não voltaria a fumar.
“Responde. Farias amor com a minha alma nua?”
Nos últimos meses aguardava num secreto terror por aquela pergunta. Ou melhor, se quisermos ser precisos, por uma pergunta naquele tom de voz, não exactamente com tais e tais palavras. O tom de voz é quase sempre mais importante do que a mensagem. O homem chamava-lhe – refiro-me à pergunta – o enigma final. A Esfinge afiava os dentes, “decifra-me ou devora-me”, e o que poderia ele responder-lhe?
“O teu corpo agrada-me muito.”
Seria certamente a resposta errada. Qualquer resposta seria a resposta errada. Ele envelhecera. Estava quase sábio. Compreendeu que faria melhor se continuasse calado. Preferia fingir-se de morto, como alguns animais quando o predador os alcança. Há sempre a possibilidade de que o predador apenas se pretenda divertir com a perseguição. Talvez ele não quisesse realmente a sua carne.
“Estou a assustar-te? Quero que te assustes, sim, gosto de te ver assustado. Agora responde: entre o meu corpo e a minha alma o que escolherias?”
Ele esmagou o cigarro no cinzeiro.
“Porque pintaste as unhas de negro?”
As lagartixas largam a cauda quando se sentem cercadas e a fuga não parece possível. Pode ser que o predador se interesse pela cauda, a qual, durante alguns segundos, se sacode e salta como uma coisa viva e autónoma, e então consigam esgueirar-se. Ele largou a pergunta como uma lagartixa largaria a cauda. A mulher porém não se deixou iludir:
“Responde!”

O homem compreendeu que estava perdido. Nos últimos meses tentara preparar-se para aquele instante. Agora, porém, agora que tudo ia realmente acontecer, sabia que não estava preparado. Nunca estaria. Respirou fundo. Precisava de um cigarro. O seu último cigarro. Não esperaria pelo primeiro dia do ano. Fez um esforço para pensar no mar. Num mar calmo, azul-turquesa, sob um grande sol de Verão. A imagem do mar costumava pacificá-lo. O que diria o peixe-pescador à respectiva fêmea se esta decidisse livrar-se dele? Podia dizer-lhe que a amava, que já não conseguia viver sozinho; de facto, coitado, já não conseguiria. A boca do peixe-pescador funde-se à pele que recobre a fêmea; os sistemas vasculares do macho e da fêmea unem-se e o minúsculo macho passa a depender inteiramente do sangue da fêmea para a sua sobrevivência. Transforma-se, digamos assim, num pénis portátil.
O homem sorriu com tristeza; logo a seguir, porém, pensou que um sorriso triste era uma contradição nos termos e esforçou-se por sorrir com ironia. O novo sorriso ficava-lhe mal, como alguém que sobre uma camisa escura, de corte clássico, colocasse uma gravata de fantasia com desenhos do Rato Mickey apunhalando a Minie (algo assim).
“Foi um equívoco, sabias?”
Ele, o pénis portátil, fora com ela para a cama pela primeira vez, à oito meses, graças a um equívoco feliz (poderia dizer, agora, que fora um equívoco feliz?). Não que não a desejasse; desejava-a, sim; mais do que isso, amava-a com uma paixão sem esperança. Uma noite encontrou num congresso e levou-a a jantar. Enquanto consultava o menu, exausto, distraído, a pergunta saltou-lhe dos lábios:
”E depois disto, o que queres fazer? Vamos para a cama?”
Pretendia dizer, é claro, vamos dormir, cada qual na sua cama. Ela não lhe deu, contudo, tempo para se explicar. Olhou-o de frente, com os mesmos olhos cruéis que o olhava agora:
“Vamos.”
Ele enfiou a cabeça no menu para esconder a perturbação. O empregado afastou-se muito direito, muito depressa, e explodiu às gargalhadas na cozinha (é assim, pelo menos, que imaginara a cena). Foram para o quarto dela. Havia uma desordem de roupas sobre a cama. A mulher deixou que o vestido lhe deslizasse até aos pés e ficou nua diante dele, bela como um abismo, a pele negra reluzindo na penumbra.
“Trazias o teu vestido verde, lembras-te?”

Ela não se queria lembrar. Vivia o presente e esquecia o passado. Fazia alarde disso. Atirou o lençol para longe e de novo o esplendor daquele corpo jovem o aterrorizou. A fêmea do louva-a-deus assassina o macho por luxúria. Um louva-a-deus macho ao ser decapitado executa melhor e com mais vagar os movimentos espasmódicos próprios da cópula. A fêmea corta a cabeça ao macho e devora-lhe as entranhas enquanto este se agita ansiosamente para atingir o orgasmo. Em algumas espécies, com a excitação, a fêmea muda de cor e brilha.
A mulher levantou-se e avançou lentamente em direcção a ele. Uma escuridade acesa. Bela como um abismo. Bela como um louva-a-deus fêmea antes da cópula.

Referência: Agualusa J. 2003. O Catálogo das Sombras: Contos. Publicações Dom Quixote. Lisboa. pp. 69 a 76.

3 comentários:

barrigagolfinho disse...

E pronto lá tás tu toda coisa outra vez, mas desta vez mais coisa ainda!! Beijo :)

Taralhouquinha disse...

Pra começar não pago direitos de autor;) Tenho a dizer que a tua nova decoração de quarto está mto gira dá-te um ar mais intelectual, sim porque se não os lês só servem mesmo pra decoração!!! EhEh

Lucius disse...

Muito bom! Vou ler novamente!